sexta-feira, 7 de abril de 2017

Sobre calar-se

Imagino os arrepios de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) ao desfrutar dos atuais modos de difusão de informação, dando aquela olhada no Facebook, nos portais de notícias e semelhantes, pela internet. Ele que, em 1922, publicou o livro Tractatus logico-philosophicus no qual filosofava, entre várias coisas, sobre a Linguagem.

A linguagem é o meio de interação entre o mundo e os seres. É uma criação intelectual, um arcabouço de símbolos e significados que nos permite entender e significar o mundo, e a forma pela qual expressamos nossas impressões dele. Portanto, todo entendimento, toda construção social e cultural é dada através da linguagem em suas mais diversas formas de manifestação.

Entendendo a limitação da linguagem, por ser vinculada à nossa capacidade intelectual limitada, Wittgenstein acreditava que "o método correto, em filosofia, seria propriamente: nada dizer a não ser o que pode ser dito”, cunhando, assim, célebre máxima: "sobre o que não se pode falar, deve-se calar", à priori sobre as coisas transcendentes, além da nossa compreensão, assuntos que ele nomeia de "Místicos", mas eu não deixaria de lado a sugestão e aplicaria tal regra à qualquer assunto. Portanto, seguindo esse raciocínio, conclui o filósofo que não existem problemas filosóficos genuínos, pois estes são resultados de confusões, distorções de conceitos, gerados pela nossa limitada capacidade de entendimento do universo. Ou seja, o fato de não entendermos a real mecânica da realidade, não significa que ela tenha problemas. As problemáticas filosóficas profundas, são criações nossas, pela nossa incapacidade de transcender.

Sugere, então, Wittgenstein, uma postura de fé sem palavras, de controle da nossa tagarelice, de silêncio respeitoso frente à questões de dimensão místicas, transcendentes, que estão fora do nosso alcance intelectual, sob risco de incorrer em erro, problematizando o que não é um problema de verdade.

Reconhecer o indizível, o inexprimível não é novidade. Os Egípcios já manifestavam essa postura respeitosa em alguns templos, nos quais a figura do Deus dos Deuses, a Suprema Causa de Tudo,  nunca era iluminada pelo sol, ao contrário das outras figuras, que eram iluminadas, cada uma em uma época do ano, simbolizando que, havia coisas que a luz do conhecimento jamais iluminaria. O mesmo símbolo nos acompanha nos "Santo dos Santos" do Templo dos hebreus; que nos remete ao interior mais recôndito da nossa alma, à escuridão do infinito do Universo ou no microcosmo intangível das partículas minúsculas. Tudo nos sugere a existência de uma mecânica além da nossa compreensão e fora do nosso controle, frente à qual só nos resta o silenciar, o ouvir e nada falar.

Como na letra de João Ricardo e Luhli, para a belíssima canção "Fala", do álbum de 1973 dos Secos & Molhados. Decerto é uma letra sobre o momento certo de falar e de calar, escolhendo o silêncio nos casos de reconhecida ignorância. Sinal de humildade. Então, gostaria, aqui, de deixar a sugestão para que tenhamos a mesma postura humilde frente ao Universo: antes de montarmos em nossa arrogância e orgulho, que prefere teorias absurdas à possível simplicidade das verdades, silenciar humildemente, e apenas ouvir o infinito, senti-lo, assumindo que existe, no invisível, o inalcançável, o indizível.




Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser 
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala 

Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
Fala


Um comentário:

Adriana Oliveira disse...

Eu e minha tagarelice, não me fez compreender, que falar não é errado, desde que se saiba o momento, como, onde, e o que falar. E a ênfase está no sentido espiritual, pois devemos respeitar a linguagem em todos os seus contextos. Com o novo título, reli e refleti. O fechamento que você, deu no final, foi de total humildade, o que ta faltando,na maioria de nós. Curti, obrigada!