sexta-feira, 17 de março de 2017

Ações e Reações

Na semana passada, o jornalista Robert Kelly passou por uma saia justa quando, durante uma entrevista para a mundialmente renomada rede BBC de radio e telejornalismo, seus filhos, desavisadamente, invadiram a sala da sua casa, na qual ele estava fazendo a transmissão. O fato foi amplamente divulgado e a família Kelly se transformou no mais recente xodó temporário mundial.

Não fosse por uma atitude do jornalista, tal vídeo passaria por mim como mais um qualquer, dos milhares que circulam por aí, entretanto, quando Kelly, instintivamente, sem sequer olhar para usa filha a afasta com o braço, acendeu-me um lembrete, algo que eu não tinha pensado antes e algo que me passaria desapercebido se não fossem algumas leituras que tenho feito: nós nos preocupamos muito com as nossas ações, mas nos esquecemos de vigiar as nossas reações.

Não julgo a atitude de Robert Kelly, muito menso sugiro como ele deveria ter agido. Eu o entendo. Posso imaginar a imensa pressão pela qual passava no momento, os dias de preparação e planejamento de cada palavra a ser dita, do melhor terno e gravata a ser usado, dos livros escolhidos para compor o cenário, e etc. Não contava ele com a interrupção imprevista, pelas pessoas que ele mais ama, seus próprios filhos. Uso este fato do amigo inglês apenas como ponto inicial de uma reflexão sobre mim mesmo e de como não estamos atentos a tudo o que fazemos.

Desde de que começamos com pensamento racional acerca da existência e das formas de se viver a boa vida, a filosofia e o pensamento religioso nos tem dado várias fórmulas que, independente das palavras utilizadas, nos sugerem uma vida honesta, caridosa e amorosa com todos ao nosso redor. Portanto, devemos ser atentos a o que fazemos, como e quando fazemos. Planejando e executando boas ações e pensamentos, receberemos o mesmo em contrapartida.

Planejar e ensaiar, com antecedência, para que nossas ações sejam sempre amorosas e caridosas é o mínimo que deveríamos fazer, é até fácil se compararmos com reagir aos imprevistos, muitas vezes assombrosos, e manter a mesma postura ética e honesta. Pra isso precisamos de ainda mais treino e atenção. Vejamos o exemplo dos lutadores de artes marciais que, preocupados com a qualidade dos seus movimentos em qualquer situação, treinam exaustiva e minuciosamente cada golpe, para que no caso de ser pego de surpresa, o golpe saia, automaticamente tão bom quanto se houvesse sido planejado de antemão.

É o ato reflexo que nos diz quem realmente somos, ele entrega a nossa verdadeira programação mental. Robert Kelly, um pai certamente carinhoso, como demonstrou em vídeo posterior, num momento de desatenção e nervosismo, agiu nada carinhosamente; assim como alguém que prega o amor e a caridade, quando é fechado no trânsito, e explode em insultos contra o irmão equivocado; ou a mãe exemplar que, ao comentar as notícias, sugere que matem os filhos desencaminhados de outras prováveis mães exemplares; e até mesmo eu – e imagino que não só eu –, quando ao ser abordado por um irmão mais desafortunado, antes mesmo de perguntar o como posso ajudá-lo, já nego a ajuda, sequer examino se tenho algumas moedas no bolso, condições de lhe pagar um prato de comida, dar a informação ou consolo que precisa ou, apenas, um sorriso e um desejo de melhor sorte, pequeno gesto que me custa pouco, mas vale muito.

Um comentário:

Adriana Oliveira disse...


Refletir antes de qualquer ação e pensamento, fácil, Não é. Mas, se agirmos em concordância com o amor, apesar de nossas falhas humanas, já é um começo. Bom texto, Tiago!