sábado, 23 de setembro de 2017

Meias verdades, mentiras inteiras



“Eu sugiro a todos os meus amigos que eles parem de ver as notícias, porque as notícias tramam para te amedrontar, para te fazer sentir pequeno e solitário, para te fazer sentir que sua mente não é sua."


Este é o refrão da mais nova canção do Morrissey, Spent my day in bed, lançada neste dia 19 de setembro. E, afastando os exageros de qualquer teoria da conspiração sobre o assunto, ele tem razão. Não é novidade o poder de convencimento de uma informação chancelada pelos dos grandes veículos midiáticos que, culturalmente, durante nossa história social, foram eleitos como filtros válidos e eficientes de qualquer informação. Se está nas redes de TV, nos grandes periódicos ou nas rádios, é sinal de que o assunto é importante, é verdadeiro e merece nossa atenção. E eles sabem muito bem disso e se utilizam desse expediente para se beneficiarem.

E nós, descuidados que somos, acabamos reféns deste mundo editado e incompleto, onde existe a prevalência do mal em detrimento do bem. Onde há mais desastres e guerras do que belezas e atos de caridade. Sequer lembramos que a preferência pela veiculação destes fatos se dá pela grande audiência que eles geram, culpa de muitos gatilhos psicológicos e culturais nossos, que já são bastante conhecidos e utilizados contra nós. E é por isso que o refrão do Morrissey é um alerta e sugestão importante.

Entretanto, abster-se da informação não é o melhor método. Deveríamos aproveitar a polarização da produção de informação que a tecnologia das últimas décadas nos proporcionou, e começarmos a relativizar mais ainda esta chancela de veracidade e qualidade da informação, colocando em xeque o poder de manipulação da "grande mídia" e criando meios de averiguar a realidade acerca dos fatos divulgados. Entretanto, ainda existe uma grande maioria do mundo que não tem o acesso a essa nova via de informação ou, quando tem, tem a preguiça, ou não tem o costume de consultá-la. Não fomos educados para questionar e averiguar tudo o que ouvimos por nós mesmos, fomos acostumados a delegar essa nossa obrigação – dentre tantas outras – a o que, antigamente, chamávamos de "veículos oficiais" e, hoje são as redes sociais, de critério altamente questionável, nos levando a um fundo de poço escuríssimo, onde a verdade dos fatos é um mero adereço descartável, um lugar que muitos tem chamado de Pós-Verdade. Mas fico com os que chamam isso de retrocesso ou burrice, o que devemos combater com todas as forças.

Por isso, numa época em que todos podemos gerar informação de longo alcance, que nos escapa do controle, é importante relembrarmos da responsabilidade de quem fornece informação e pelas influências psíquicas que ela causa. E, também, não menos importante é a de quem recebe a informação, de como a interpreta e como a repassa. O desconforto e o conforto do mundo passa por nossas mãos e mentes, de uma forma bastante prática, através das redes sociais. Aquela notícia falsa, opinião equivocada, discursos de ódio ou preconceituosos, mesmo que pareçam inofensivos, não são, pois são replicados aos milhões e, nessa reiteração constante contribuem para o grande mal estar generalizado que se espalha pelo mundo, gerando desanimo, depressão e seus desdobamentos mais funestos. Uma mentira repetida mil vezes continua sendo uma mentira e a responsabilidade por todo o mal que ela causa é, sim, toda nossa.

sábado, 16 de setembro de 2017

O problema e a solução

Milênios de história e os que nos governam vem tomando as mesmas péssimas atitudes de sempre. O descaso com o Povo e a despreocupação em criar mecanismos para que todos ou, pelo menos, a maioria consiga desenvolver uma vida digna, atingindo objetivos e realizando sonhos não é de hoje. E mesmo assim, nós também temos tomado a mesma péssima atitude de mantê-los ali, no comando e na folia, mesmo cansados de saber que as soluções nunca vieram "lá de cima", pelo contrário, de lá só vieram os problemas. É evidente, e sempre foi, que a mudança é um trabalho nosso, do Povo, por isso deveríamos estar todos unidos a nosso favor, pelo bem comum, e não nos digladiando por ideologias, ou por quem jamais nos defendeu ou ajudou sem sequer demonstrar qualquer sinal de remorso.

Junto com as notícias mais recentes, o texto abaixo me inspirou o poema "Excelência,". Ele é trecho da biografia de Anália Franco e descreve fatos de 100 anos atrás, mas que poderiam ser atuais, em qualquer esfera do poder público.

"(...) O ano de 1918 não pareceu diminuir as dificuldades do povo paulista, castigado por um inverno excepcionalmente frio, com grandes prejuízos para a lavoura e a temperatura chegando a marcar mais de 3.C negativos. Devastadoras ondas de pragas invadiram seus campos diminuindo a oferta de alimentos e, particularmente na capital, as chuvas elevaram o nível dos rios Tietês, Tamanduateí e Pinheiros, causando inundações e paralisação quase total dos trens. Enquanto isso, o prosseguimento da guerra na Europa mobilizava a grande e apreensiva massa de imigrantes fazendo crescer a tensão social.

E seria com esse cenário que a progressiva são Paulo veria chegar o auge de suas agruras com a pandemia da gripe espanhola que revelou uma Saúde Pública totalmente impotente e um desencontro total entre autoridades e médicos. Enquanto durou a epidemia, a Câmara Municipal não funcionou porque os representantes do povo acharam ser sua integridade mais importante que a do povo que os elegeu e trataram de deixar a cidade. Ante o desmazelo e o despreparo do poder público, a sociedade civil teve de organizar-se para evitar o aumento da catástrofe, enterrando os mortos em valas comuns, tentando tratamentos alternativos para os doentes, improvisando hospitais e dividindo os escassos alimentos.

A vida, naquele fim de 1918, não valia nada. O medo pairava no ar. Ninguém poderia julgar-se imune ou protegido e, ao menor sintoma, o desespero tomava conta de muitos, verificando-se, então, uma onda de suicídios, de homicídios e de tragédias. A falta de recursos médicos, a desinformação, a irresponsabilidade de políticos e médicos só foi compensada pela capacidade com que a população soube se mobilizar."


in MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Anália Franco - A grande dama da educação brasileira. 1a. Edição: São Paulo, Madras, 2004. p. 220

Excelência,


Mãos ao queixo, olha a face refletida
Na janela do automóvel luxuoso
Será sua aquela face estarrecida?!
Fora, outrora, um semblante jubiloso...
Mas, agora, se assemelha a um homem morto

Perderá o seu império, o seu conforto?
Reino erguido da galhofa com o povo
Decorado pelas mãos da inconsequência
Contanto, para si, não houvesse estorvo
Bem dormia sobre as plumas da indolência

Esquivando-se da indecência que criara
Fecha os olhos, mas não escapa à consciência
Vê, agora, um povo enfrene a insurgir-se
Vê, lá fora, um pesadelo a realizar-se
Vê, nos olhos do mendigo que te encara, a sua culpa
Vê, na cara do indigente que te olha, a sua cara

sábado, 9 de setembro de 2017

Reflexões às margens do Ipiranga

Neste 7 de setembro, estive no Parque do Ipiranga, aqui em São Paulo, para as comemorações da Independência do Brasil. A imaginação excitadíssima por estar no mesmo lugar onde, há 195 anos atrás o Imperador Pedro I recebeu um comunicado de Portugal, com novas diretrizes da coroa e, não contente com o que leu, resolveu que era hora do Brasil ser um país independente. Os detalhes da operação, se houve grito, cavalo branco, mula ou diarréia, pouco me importa, é apenas detalhe tão útil quanto a cor das ceroulas do imperador naquele dia ou das minhas nesta tarde.

De qualquer forma, foi muito emocionante cantar o Hino à Independência e o Hino Nacional, executado pela orquestra da USP, ao por do sol; olhando o Monumento à Independência, onde estão os restos mortais de Dom Pedro I, bem ao lado do Riacho do Ipiranga.

Mas, mesmo envolvido entre tantos símbolos nacionais, toda a pompa e circunstância e o respeito que o evento demandava, não pude evitar pensar : "Independência do que? De quem?". Realmente, apesar do evento histórico, apesar de termos nosso próprio governo, de fato, de verdade mesmo, nunca fomos um país independente. Talvez nenhum país o seja realmente, talvez não haja independência de verdade em lugar nenhum.

O fato é que sempre dependeremos de alguém. De alguém que nos pague um salário, de alguém que compre do que produzimos, do agricultor que planta nosso alimento, da planta e dos animais que o fabricam, das moléculas vitais que estão no ar que respiramos, de cada órgão e célula de nosso corpo que nos forma e permite a vida, da luz do sol que permite as condições energéticas e climáticas para a vida... enfim, é um ciclo infinito de interdependência em muitos níveis.

Da mesma forma funciona entre as nações do mundo. Há os que compram, os que vendem, os que produzem e essa relação se desdobra em quem manda mais ou menos, quem pode mais ou menos. A dinâmica das relações é sempre a mesma, e não é estática, pode ser alterada no desenvolver do tempo, por inúmeros fatores.

E, de repente, percebi que esse raciocínio derrubou a própria questão que o criou. É muito primário, quase infantil, ficar questionando "independência por que? de quem? de que?", pois, de fato, isso não existe. A independência, que só existe se for completa, pois, se incompleta, ainda é dependência, é uma ilusão. Somos dependentes de tanta coisa que é melhor reconhecer que não existe, verdadeiramente, a independência. E qualquer luta para conquistá-la é vã, é quixotesca, para deixar mais poético.

Portanto, é melhor reconhecer que, para nos mantermos vivos e bem, precisamos de todas as coisas que existem, até mesmo de coisas que ainda nem sabemos. Trabalhando, assim, uma vida realmente melhor e mais leve, que não se desgasta na busca de uma superioridade impossível, mas que, através desse paradigma mais respeitoso e grato com tudo que nos cerca, nos coloca novamente no nosso lugar como intermediários, e não como finalidade do universo, que faz a vida chegar até nós para que a passemos adiante grata e caridosamente.

sábado, 26 de agosto de 2017

A beleza das saudades

Há dias em que memórias se revolvem e voltam à superfície, e trazem consigo todas as sensações tão vivas que parecem lembranças da véspera ou de poucos meses trás, no máximo. Nos últimos dias, trabalhei estes versos e as saudades da minha saudosa avó, Luzia que, há quase 7 anos, partiu para cumprir seu papel em outras dimensões.

Acredito na ausência total de qualquer separação entre todas as coisas, não há espaços vazios entre tudo o que nos cerca, seja no universo tangível ou não. Estou certo da interação constante entre tudo, inclusive entre os diferentes planos da existência. É por isso que, agora, qualquer saudade está longe de ser ruim. Agora, toda saudade, toda memória que ressurge sabe-se lá de onde em mim, é sinal de que a outra testemunha, que compartilha destas memórias, está ou esteve por perto, passando pra dar um oi, pra conferir se tudo vai bem, e cochicha nos meus ouvido as tantas coisas boas que vivemos juntos.

Me agrada saber que, de alguma forma, estive novamente envolvido carinhosamente pela minha avó. Pude até sentir o cheiro de Creme Nívea que habitava seus abraços e ouvir o estalar dos chinelos pelo chão da casa, enquanto vasculhava o coração atrás das palavras certas pra estes versos. Obrigado pela visita, querida avó. Volte sempre. Foi, e será sempre, uma alegria imensa compartilhar mais alguns momentos com você.

Os olhos de Luzia

Em memória de Luzia Bertoleti Inforzato, minha avó.


Luziam azuis os olhos de Luzia
Acompanhavam um riso franco, de não se esquecer jamais
Enchiam a casa de luz e de alegria
E a vida. Colorindo o mundo dos meus ancestrais

Doces memórias que embrulho em nostalgia
Pra evitar que o tempo lhes roube o bom sabor
O girassol do campo da canção antiga
O colo e o aconhego, o perfume e o mar de amor
E não só isso. Muito mais dela levo comigo
Nessa vida que sonhava que eu vivesse, e vivo

Luziam azuis os olhos de Luzia
E me escapam lágrimas ao pisar nestes quintais
A saudade dói, ainda, dia a dia,
Onde os olhos de Luzia já não luzem mais

sábado, 5 de agosto de 2017

Reconhece a queda e não desanima...


"Rico, de nada há servido as suas riquezas. Novo Plutus, como bem diz um escritor, vive no meio delas sem poder utilizá-las. Não há país onde se fale tanto em riquezas como no Brasil. Entretanto, em nenhum outro é tão difícil a vida, e tão incerto o futuro dos cidadãos. É que nossa sociedade infelizmente ainda não se compenetrou da necessidade da instrução e da ideia do trabalho livremente exercido e compensado sem distinção de sexos nem de posição. Se é como se diz, lei invencível das coisas humanas, que cada nova liberdade peça em contrapeso uma nova virtude, cada novo direito imponha um novo dever, cumpre aos que dirigem os nossos destinos traçarem com a segurança da experiência e da observação o caminho que devemos seguir para a paz e o engrandecimento da nação.

(...)

Os mil espinhos e dificuldades que são outros tantos embaraços para a realização de tão nobre intento não devem ser motivos de desalento, porque as transformações sucessivas do mundo material e moral nos estão apontando aos brios da dignidade e às palmas do triunfo que só se alcançam com a perseverança.

Nesta época de corrupção e de falsos prestígios que quase tem sido só um triunfo da mediocridade, e cujas más influências parecem tender em toda a parte a paralisar o caráter e o talento, no meio dos males que nos oprimem, volvemos os olhos cheios de fé para os horizontes do porvir. Animando-nos a esperança de que aqueles que a dirigem amarem verdadeiramente a pátria e compreenderem suas necessidades, hão de formar do Brasil um corpo social mais em harmonia com as ideias do século, elevando-o assim a ocupar o lugar que lhe compete entre as nações do mundo.

Na aurora de 1889, nasceu em França uma ciência nova, tendo por fim estudar os fenômenos sociais, principalmente na produção, na distribuição e no consumo das riquezas. É preciso que ela também apareça entre nós e que sua luz penetre em toda parte a esclarecer as classes oprimidas, manifestando-lhes os esplêndidos triunfos da ciência hodierna.

A verdadeira grandeza de um Estado, diz Worlz, "depende dos cidadãos que o governam e se empregam em elevar as almas e inspirar ideias generosas em vez de vil escravidão". República e ignorância são duas palavras que se contradizem e que se repelem; assim, a única garantia de sua consolidação está na instrução do povo e numa legislação que possa consolidar, tanto quanto o nosso século permite, os interesses de segurança com o voto da humanidade.

E como diz Barros, "quando a civilização tiver conseguido alcançar em toda a parte o abandono dos velhos usos da barbárie, a gerra deixará de ser possível, porque não haverá forças materiais que possam lutar contra as forças morais".

Não é, pois, a força bruta que constitui o elemento triunfal da Democracia, mas sim a força do espírito, que tem por si o suficiente influxo para resolver os mais elevados problemas sociais, econômicos e financeiros, para realizar os mais transcendentes prodígios.

Erguendo a minha voz humilde para saudar o IX aniversário da República, em conclusão direi como Berryer: "Não temais cidadãos em seguir o verdadeiro progresso do espírito humano que há de confiar, não em exércitos comandados por capitães mais ou menos hábeis, pois não é a força brutal, mas aos nobres combates de espírito, as lutas da inteligência o destino e a direção das sociedades."

Este texto não é meu e, apesar de pertinente, infelizmente não é atual. Foi publicado na revista Álbum das Meninas, n. 8, de 30 de Novembro de 1898, escrito por Anália Franco uma das grandes mulheres brasileiras, precursora do feminismo no mundo e merecedora de reverência e estudos nossos. Hoje, a palavra foi dela dada a sabedoria à qual me curvo tenho o dever de compartilhar.


in MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Anália Franco - A grande dama da educação brasileira. 1a. Edição: São Paulo, Madras, 2004. p. 196-197.

sábado, 29 de julho de 2017

Mude!

Chega uma hora na vida de todos nós, quando o sofrimento é imenso; quando tudo parece não fazer mais sentido; quando reina na alma o sentimento de se estar perdido; quando o desconforto beira, ou até mesmo extrapola, o insuportável. Nessa hora é muito comum dizer que "a vida nos dá golpes fortes", como se ela fosse um tipo de entidade com vontade própria. Assim, usamos mais uma vez a nossa tradicional transferência de responsabilidades que deveriam ser nossas, mas legamos para a vida, para as pessoas, para as leis e, até mesmo para o clima.

Assim, nos enganando e falsamente isentos de responsabilidade, nos sentimos mais leves para continuar vivendo as mesmas ilusões, mantendo os mesmos comportamentos e nutrindo, inevitavelmente, os mesmos vícios até que se torne insuportável.

E é no insuportável que estamos chegando, mais uma vez, na história humana. O materialismo, relação primitiva que temos com as coisas já não é o suficiente para nos completar os anseios e nos dar o bem estar que procuramos, pelo contrário, atualmente só nos tem provocado o oposto: tristeza, dores, ansiedade, doenças psíquicas e físicas.

Tragédia atrás de tragédia. Mas todo sofrimento é um convite à mudança, insistir nos mesmos erros só perpetuará as dores. A ressaca vem para avisar que é pra beber menos da próxima vez; a gastrite vem pra avisar que é melhor comer menos e ficar menos nervoso. É nesta hora escura e difícil da existência, pela qual estamos passamos, que é preciso mudar a forma de agir e de pensar.

Enquanto for "a sociedade" que precisar mudar para o mundo melhorar, nada mudará. A sociedade não é ninguém, não é um ente que faz algo, ela não vai me ouvir, refletir e decidir se acata ou não o meu pedido. Quem muda e deve mudar sou eu. Sou eu que, mudando a mim mesmo, influencio os meus arredores e, após algum tempo, arrisco a perceber alguma mudança em maior escala.

Enquanto a mudança que desejo não acontecer, é sinal de que não mudei o suficiente ou não influenciei suficientemente os meus arredores. Então é preciso continuar o esforço, persistir infinitamente, até que o mundo se torne o bem que desejo, refletindo a mim o bem que eu faço a ele, conforme a Lei Universal que, invariavelmente e infelizmente, também vale para o mal. Portanto, vale sempre lembrar que o gatilho de qualquer mudança sou eu. E o mesmo se aplica a você. Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, já davam a dica: primeiro é "um por todos" para que, depois, possa haver o "todos por um".

E continuando entre as boas influências de grandes humanos que, no trabalho de evolução individual, mesmo em meio a tropeços e inúmeras dificuldades, o que certamente acontecerá com todos os que se dispuserem a viver melhor, tentaram sugerir caminhos e influenciar os seus arredores para o bem, lembrei da sugestão do Michael Jackson, na belíssima "Man in the Mirror" que, apesar de estar num disco de nome "BAD", tem uma mensagem muito bonita. Aqui vai um trecho:

Estou começando pelo cara do espelho
Estou pedindo para ele mudar suas maneiras
E nenhuma mensagem poderia ser mais clara:
Se você quer fazer do mundo um lugar melhor
Olhe-se a si mesmo e mude!
Mude!





sexta-feira, 28 de julho de 2017

Natureza Morta


Não suporto as questões do mundo!
E não me satisfazem todas as respostas
O peso que carrego são velharias rotas
Grilhões que me aprisionam rente ao fundo

Meus pés, tão podres, já não andam
E o corpo, apático, definha
O Espírito, triste, já não sonha
Satisfaz-se com o raso da rotina

Oh, imensa plantação de dores!
Inevitável que ceifemos dissabores...
E o que mais lançar à terra, então?
Se não há semente de mais nada em meu coração


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Falso soneto sobre verdades


Não sou eu quem descreve, sou tela
E mão oculta colore alguém em mim
Torna o canvas obscuro em fundo cor marfim
Que acolhe as tintas da auspiciosa tutela

Não sou eu quem verseja, sou nanquim
Sou tinteiro e pena nas mãos da poesia
Que, ao ferir, também anestesia
E deita poemas nos papéis de mim

São imensas as forças do universo
Transmutando o todo sideral
Na alquimia hermética inspiracional

Decantam imagens, sons e versos;
E da filosofia eterna, os aforismos
Sedimentos que preenchem meus abismos

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Refazendo as malas

Quem viaja bastante sabe como fazer as malas é chato e difícil. Mas, também, sabe que uma mala bem feita, a menor possível, pode transformar a viagem de inferno a paraíso. Na vida, que é viagem, tudo é bagagem.

Lembro-me da infância com doçura. Eu e muita gente, sem dúvidas. Posso até sentir novamente a leveza daqueles dias, certamente geradas pela presença poderosa e segura do meu pai e de minha mãe, infalíveis. Tudo era sempre mágico e interessante e a mochila das experiências começa a ser enchida.

Passos além, na juventude adolescente, ainda crianças e pensando já sermos adultos, nos afastamos  alguns mais, outros menos  da segurança parental, e os dias pareciam ser os mais pesados de toda história humana e para sempre. Os revezes nos alcançam e as soluções estão cada vez mais em nossas mãos ainda inabilidosas. Sofremos, mas agregamos algum conhecimento de vida circulando entre ideias, processos e pessoas, aumentando o conteúdo da nossa mochila de viagem.

E o tempo continua a correr, e nós a envelhecer, ou melhor, amadurecer. Ainda estou longe de vestir as chinelas da senilidade e me despedir dos últimos resquícios de vigor, mas daqui, mais de perto dos 40 do que dos 20, com alguma experiência de vida a mais e capacidade de observação, mesmo que inconsciente, as ideias mudaram (inclusive na grafia), assim também os paradigmas de tudo, ou quase tudo, como os de qualidade, de bom e mal, de saúde e doença, de necessário e desnecessário. A mochila está cheia de souveniers da vida, está imensa e pesada, nada fácil de carregá-la, ainda mais para alguém, que apesar de insistir no contrário, já não é mais tão jovem.

Apesar da imagem física do envelhecimento que utilizei, o tempo aqui discutido não é o cronológico nem o biológico, mas o que se desenvolve na consciência. E nessa escala de tempo, que varia em cada um de nós, chegam momentos, sempre oportunos, quer gostemos ou não, de selecionarmos o que levamos a frente e o que fica pelo caminho. Aprender a manter o essencial, e apenas ele, evita carregarmos peso demais, que nos vai atrapalhar durante a próxima fase da caminhada. Então, antes escolher, em tempo oportuno, com calma, o que levar consigo, do que ter que se desfazer de toda a imensa e pesada mochila no meio de uma difícil escalada.

Quanto compôs "Monte Castelo", Renato Russo utilizou o Soneto V, de Luís de Camões, e trechos da primeira carta de Paulo aos Corintios. Nesta carta de Paulo há um trecho, que não foi utilizado na canção, que pode sintetizar bem a ideia desse necessário amadurecer, da necessidade de selecionar melhor o que se leva adiante, e adaptar-se às novas realidades que se apresentam, minimizando sofrimentos e facilitando a peregrinação pela vida. E com ele terminamos: "Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. (1 Corintios, 13:11)".


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Documentário : Chasing Trane [2016, John Scheinfeld]




"O que você faz é o motivo para você estar aqui". Essa frase soou feito uma bomba, mais uma que o contato com a vida e obra de John Coltrane me trouxe. Não me lembro quem disse, acho que foi o Jimmy Heath, durante uma de suas falas no documentário Chasing Trane, de John Scheinfeld.

Documentário carinhosamente criado e montado, que explicita ainda mais o processo de vida e criação de John Coltrane, que se misturam. Na verdade, são a mesma coisa. Na vida e na obra, Trane usa a música como instrumento de transformação, de superação do humano, em busca do sublime, do inefável; reflete sobre a responsabilidade do artista sobre o que ele transmite.

Curando-se a si mesmo pela música, e dando vazão à voz de seu espírito sempre pacífico, saiu dos labirintos dos vícios ao infinito de possibilidades que uma consciência integral permite. Quis curar o mundo. Tanto que, mesmo chegando no ápice da integração entre música e sentimento, com sua obra prima "A Love Supreme" (1965), não se deu por satisfeito e foi além, dando passos que poucos, ou até mesmo ninguém foi capaz de seguir.




Na emoção do reencontro com esta figura tão elevada, recupero uma publicação antiga, mas que pode dar alguma dimensão, se é que isso é possível, à transcendência de John Coltrane. Elevem-se.



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sem festas, amigos! Ainda é preciso mais.

O movimento "Diretas Já", de 1984, apesar de ter sido a maior manifestação popular da história do Brasil, só não foi um fracasso completo porque gerou lideranças populares que conseguiram se articular politicamente e conquistar alguma representatividade na assembleia constituinte que geraria a Constituição Federal de 1988.

Sim, a PEC nº05/1983, que criaria as eleições diretas no Brasil, conhecida como Emenda Dante de Oliveira, mesmo com a massiva participação popular e com 84% de aprovação nas pesquisas de opinião, não foi aprovada; não passou nem na primeira votação na Câmara dos Deputados. Vale lembrar, também, que a maioria dos envolvidos na constituinte, os mais poderosos, ainda eram os mesmos de sempre, representantes do poder que já estava lá desde antes mesmo da fundação da República. E ainda são.

O ex-presidente Figueiredo, último dos militares, declarou posteriormente que o sistema militar estava insustentável e a única solução foi acabar com aquilo tudo. A nova constituinte chegou em boa hora. Numa grande encenação, mudariam o regime político, se garantiriam no poder, e ainda ganhariam aplausos do povo sempre desatento e deixado de lado. Sim, a ditadura militar acabou por que eles quiseram, para a sobrevivência deles mesmos.

Por isso, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves, o grande articulador do desmonte do regime militar por ter acesso e diálogo com os dois lados do poder, foi eleito presidente do Brasil em eleições indiretas. Jamais deixariam que fosse diferente, era preciso alguém de confiança. Mas, acometido por grave doença "inoportuna", Tancredo foi o boi de piranha, faleceu antes de assumir o cargo, ficando para o seu vice, José Sarney, do, vejam só: PMDB.

Eleições diretas para presidente do Brasil só ocorreriam em 1989, após ser estabelecida na Constituição de 1988, e com as rédeas da carroça garantidamente nas mãos dos mesmos dirigentes de sempre. O vencedor desta foi Fernando Collor de Mello, com grande apoio popular em virtude da campanha contra "os Marajás" e a corrupção que fazia. Foi o boi de piranha da vez, atrairia votos e cairia, sofrendo impeachment, deixando a presidência para seu vice, Itamar Franco, do PMDB, é claro.

Semelhança com algum fato recente? É claro! A novela, o enredo, os personagens e problemas são os mesmos de sempre. Nós, o povo, é que não podemos mais ser os mesmos. O momento é delicado e, anotem: nos será oferecido um belíssimo teatro da democracia, muito em breve. Não podemos mais nos contentar com a encenação que sempre nos oferecem nessa hora. Devemos parar de gastar a nossa energia em lutas entre nós mesmos, isso cansa e enfraquece. Nossa energia e atenção deve ser canalizada para o acompanhamento minucioso e sério dos fatos que estão para se desenrolar na política nacional. Pedir "Diretas Já" é válido, mas é muito pouco. Ter eleições diretas é muito pouco. É preciso mais, é preciso usar o processo democrático de forma eficaz na renovação total dos agentes e dos valores políticos do Brasil. Atenção e serenidade é o que precisamos agora. A vida adulta da Nação se aproxima.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Do alto de nossas torres


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...


As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...



Nesta semana, por acaso, esbarrei nesta bela peça de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), conhecida desde minha já distante juventude. Ismália é um dos poemas mais emblemáticos da literatura brasileira e Alphonsus um grande nome da poesia nacional. Não pude, então, deixar de alimentar a minha antologia de poemas preferidos com ele, que já é o oitavo. Os outros todos estão aqui.

Apesar de ter vivido Afonso Henrique da Costa Guimarães, Juiz de Direito, com a esposa e os quinze filhos na, hoje calamitosa, cidade de Mariana (MG), carregava Alphonsus Guimaraens a alcunha de "o solitário de Mariana", dado a grande carga de solitude, tristeza e misticismo em seus versos, tanto que costumavam encomendar-lhe os epitáfios dos amigos. Tal discrepância entre a vida de Afonso e poesia de Alphonsus sugere, ou melhor, comprova que a persona do poeta não é a mesma do humano que a carrega.

O poema Ismália foi publicado no livro "Pastoral aos crentes do amor e da morte", póstumo, organizado por seu filho João Alphonsus e publicado pela editora Monteiro Lobato & Cia em 1923. Percebe-se, em seus versos, magicamente equilibrados a leveza da descrição com o peso da cena descrita. Ismália, louca, coloca-se no alto da torre, símbolo de inflexibilidade e arrogância, e sofre com a dúvida entre os tantos quereres; entre a real, mas intocável lua do céu, e a ilusória, e também intocável, lua refletida no mar; entre o possível e o impossível. Sofre tanto, tão imensamente, mas prefere abster-se da necessária escolha e, na tentativa de ter tudo sem desfazer-se de nada, põe fim à própria vida.

É interessante ver que, por causa da tamanha leveza com a qual foram construídos os versos, pela genialidade do poeta, a agonia da personagem jamais será alcançada completamente pelo leitor. Ao final do poema é difícil ficar tão pesaroso com o corpo que jaz no mar, pois o alívio com a alma que sobe ao céu é inevitável. Parece-me que, mesmo quando o corpo escolhe mal, preferindo o ilusório, a alma sabe fazer a melhor escolha, sabe onde está a verdade.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Não nos desanimemos

Conversando entre amigos, um deles disse que estava preocupadíssimo com o futuro e sem esperanças de melhoria da situação pela qual passamos. Tudo parece indicar que a humanidade saiu dos trilhos para nunca mais voltar e está em vias de acidentar-se fatalmente. E, triste, acrescentou que esses pensamentos o estavam minando sua fé, o fazendo se sentir de mãos atadas, desanimado, cansado, já que os esforços que vem fazendo parecem não surtir efeito na escala em que deveriam, afinal, é a humanidade toda pra se mudar, e o tempo pra que isso aconteça antes de um cataclismo, uma grande guerra ou coisa pior, parece bastante curto.

Foi quando uma amiga interveio e, diferente das respostas espiritualistas que costumamos ter na ponta da língua nessas hora, apresentou uma solução bastante pragmática. Disse ela: "Eu também já passei por isso, mas um amigo me ensinou algo que me ajudou a vencer esse sentimento ruim, essa tristeza que olhar o mundo tem nos causado. Ele me sugeriu, nessas horas, descobrir o meu "raio de ação".

E continuou: "Pra todo problema que você enfrentar, a primeira coisa é perceber até onde as suas mãos alcançam e o quanto seu braço aguenta, ou seja, o tamanho do seu raio de ação, até onde você consegue interferir no mundo. Dando preferência para as coisas próximas e conhecidas, é mais provável que elas respondam melhor às suas ações, e são mais fáceis de observar, passando a sensação de que algo está mudando. É mais eficiente do que esperar alguma coisa do outro lado do mundo perceber o seu movimento e correspondê-lo."

Na hora me lembrei do filme "A Corrente do Bem" (Pay It Forward; 2000), cuja ideia principal é basicamente a mesma sugerida pela minha amiga: faz-se algo bom para quem está próximo de você e esta pessoa faz o mesmo com quem estiver próximo dela, e assim adiante, até que, tempos depois, um maior número de pessoas estarão participado de um ciclo virtuoso de bem-fazer e bem viver.

Não é nada nova e muitos ainda dizem ser utopia, mas eu acho a ideia bastante plausível e inspiradora. E que, se fosse realmente praticada pela parte significativa de pessoas que assistiram ao filme e se sentiram tocadas, o mundo já estaria colhendo melhores resultados do que aqueles que deprimem o meu amigo e um grande número de pessoas.

Então, não é preciso imensas elocubrações filosóficas para entender a moral cósmica; não é preciso criar grandes planos de alcance mundial, movimentando as pesadíssimas engrenagens do mundo sozinhos. É gasto energético desnecessário, ficaremos cansados antes do tempo. 

Preocupar-se com o futuro é importante, mas ele é resultado do presente. Dividindo as responsabilidades entre todos, ninguém fica sobrecarregado, facilitamos o trabalho e diminuímos o peso, principalmente na consciência, dando o exemplo a quem pode nos ver e seguir. As pequenas atitudes, com seus resultados facilmente visíveis e palpáveis, além de cansar menos, nos animam a continuar agindo. Por isso não há motivos para desânimo. A solução está mais perto do que pensamos. Façamos!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Do assunto

O humano vulgar fala de pessoas;
O humano comum fala de coisas;
O humano elevado fala de idéias.

                                                              - Confúcio -

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O trabalho de sempre

Hoje é Dia do Trabalhador, dia livre pra nos concentrarmos em outras coisas. Inclusive, num outro tipo de trabalho, que movimenta outro tipo de capital, que paga outro tipo de dívida, e que produz outro tipo de bem. É um trabalho para o qual não há feriado nem contra-indicação e, quanto mais se faz, mais leve se fica.

E o Emmanuel vai dizer qual é:


Dívida de Amor

“Portanto, dai a cada um o que deveis; a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra.” — PAULO (Romanos, 13.7)


Todos nós guardamos a dívida geral de amor uns para com os outros, mas esse amor e esse débito se subdividem, através de inúmeras manifestações.

A cada ser, a cada coisa, paisagem, circunstância e situação, devemos algo de amor em expressão diferente. A criatura que desconhece semelhante impositivo não encontrou ainda a verdadeira noção de equilíbrio espiritual.

Valiosas oportunidades iluminativas são relegadas, pelas almas invigilantes, à obscuridade e à perturbação.

Que prodigioso éden seria a Terra se cada homem concedesse ao próximo o que lhe deve por justiça!

O homem comum, todavia, gravitando em torno do próprio “eu”, em clima de egoísmo feroz, cerra os olhos às necessidades dos outros. Esquece-se de que respira no oxigênio do mundo, que se alimenta do mundo e dele recebe o material imprescindível ao aperfeiçoamento e à redenção. A qualquer exigência do campo externo, agasta-se e irrita-se, acreditando-se o credor de todos.

Muitos sabem receber, raros sabem dar.

Por que esquivar-se alguém aos petitórios do fragmento de terra que nos acolhe o espírito? por que negar respeito ao que comanda, ou atenção ao que necessita?

Resgata os títulos de amor que te prendem a todos os seres e coisas do caminho.

Quanto maior a compreensão de um homem, mais alto é o débito dele para com a Humanidade; quanto mais sábio, mais rico para satisfazer aos impositivos de cooperação no progresso universal.

Não te iludas. Deves sempre alguma coisa ao companheiro de luta, tanto quanto à estrada que pisas despreocupadamente. E quando resgatares as tuas obrigações, caminharás na Terra recebendo o amor e a recompensa de todos.


Capítulo # 150 do livro Vinha de Luz, de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Nem tudo é relativo

Li um artigo que falava sobre o pensamento pós-moderno, que está na moda atualmente, e sugere ser toda construção racional uma imposição socio-cultural e, por isso, deve ser questionada e combatida, até mesmo com atitudes violentas. Assim, os pensadores pós-modernos apregoam por aí que tudo é relativo, que a informação e o contexto trazidos por qualquer texto não é mais importante; o que vale mais é o que foi recebido, filtrado pela vivencia e opinião do receptor, independente se essa informação é oposta ou até mesmo não está no texto.

Não há problemas se o texsto for artístico, inclusive, essa abertura de interpretação é, muitas vezes proposital. Entretanto, sugeria o texto que lia, ser perigoso quando se adota tal postura relativista sobre tudo, principalmente sobre o conhecimento científico, adquirido através do método e observações factuais, citando que já existem movimentos que lutam pelo fim da Ciência (esse engodo da classe dominante) e sugerem a bruxaria como substituta; ou ainda uma filósofa pós-moderna que admite ser possível considerar que uma girafa não é necessariamente mais alta do que uma formiga, pois até mesmo as proporções das coisas dependem de crenças e valores impostos de cima pra baixo. Fiquei assustado.

Se olharmos o mundo com um pouco mais de atenção, é possível perceber que grande parte das barbaridades que vivemos atualmente tem a ver com essa relativização geral das coisas, da ética, do método, do bem e do mal, do certo e do errado, etc. O consenso geral, um entendimento médio, não existe. Inclusive, questiona-se a utilidade dele existir. E quando um grupo não tem uma opinião comum sobre o que é importante, onde quer chegar, como ou quando é melhor chegar, por exemplo, cada um vai pra um lado, faz o que bem entende e nada progride, pelo contrario, regride.

Parece-me que o pensamento pós-moderno tem fortalecido a individualidade de uma forma burra. Antes eramos indivíduos, sim, mas células de um organismo que deveria caminhar unido. Hoje, tentam nos convencer que somos apenas células que caminham sozinhas, sem um corpo. E, conforme o que sabemos científica ou empiricamente, qual formato vai obter mais sucesso? Não vejo onde isso possa ser relativo, são milhões de anos de fatos.

Das partículas primitivas aos seres humanos, tudo, em algum momento, "percebeu" que viver em conjunto aumenta as chances de sucesso na existência. É lei da atração, é a comunidade, é o amor e, mesmo que existam hoje diversas ideias sugerindo o contrário, é evidente que elas estão equivocadas. Veja o que está na sua frente: estamos sendo estraçalhados pelo nosso egoismo e solidão, modus vivendi em grande parte sugerido por essa nova filosofia.

A união faz a força, sim. Desde as partículas minerais aos grupos sociais. E, mesmo que unidos não nos tornemos invencíveis, pois não somos eternos nem perfeitos, só unidos seremos mais fortes, e só unidos sobreviveremos.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Meu amigo Pedro

Sabe, o Pedro era um amigão, a gente trabalhou muito tempo juntos e, sempre quando chega o outono, esse friozinho chegando, eu me lembro daqueles dias. Acho que já se passaram uns quatro anos e eu ainda não acredito naquilo tudo. Você também não vai acreditar, mas... tudo bem, eu conto a história, não tem problema. 

Um dia chega o Pedro com esse papo besta, com essa ideia de que não quer mais saber de ser tão sentimental, que não vai mais se emocionar e nem se envolver com nada e nem ninguém. “To cansado dessa joça, pro inferno com isso tudo! Sentimento não tá com nada!” – ele falava. Imagina, logo de manhã, lá no escritório, com essa ideia maluca, a coisa só podia estar grave mesmo. A gente bem que tentou dissuadi-lo, até sugerimos terapia, mas não deu não. Foi piorando a cada dia. 

No começo ele simplesmente ficou mais quieto, menos opiniões, menos conversa fiada e essas coisas que a gente até entende. Depois parou de ir pro happy hour. Daí, umas duas semanas depois ele simplesmente não foi mais trabalhar. Trancou-se em seu apartamento e raramente atendia ao telefone. Eu fiquei preocupado, afinal ele estava levando aquilo tudo muito a sério. Insisti numa visita mas nada feito, ele simplesmente saiu de circulação. Nem demissão tinha pedido, o chefe ficou uma arara de bravo. 

A esperança era a Dona Nilsa que, uma vez por semana ia fazer a faxina no apartamento dele, mas ela não era daquelas muito atentas e nunca sabia falar nada sobre o cara, se tava bem, se tava mal... Ficamos definitivamente sem saber de nada do que se passava com o nosso amigo. Então, naquele mês, veio a calhar de um feriado bem no dia da faxina, e a Nilsa não foi, deixando Pedro duas semanas em completo isolamento. Alguns vizinhos, moradores dos andares abaixo, disseram que nos últimos dias antes do fatídico evento, seus passos estavam a cada dia mais evidentes, pesados, dava pra perceber o ir e vir do rapaz pelo apartamento. “A gente catucava o teto com a vassoura pra ver se ele pisava mais leve, mas nada feito” – disse a Dona Menezes do 304. 

E foi assim, num 20 de Abril, não tem como esquecer essa data, véspera de mais um feriado, a Dona Nilsa entra no apartamento pra fazer a faxina, como de costume e, quando passa pelo corredor que vai da cozinha para os quartos, tropeça numa pedra enorme largada no chão. Primeiro ela xinga, depois, solta um grito que foi ouvido por todo o Edifício Europa e, se bobear o quarteirão inteiro: “Seu Pedro!?! Peloamordedeus!!! Seu Pedro!!!” e desmaia. 

A vizinhança, assustada com o grito, chama a polícia, e o local logo vira alvo dos curiosos. A imprensa foi correndo pra lá; ligaram no escritório e todo mundo foi pra lá também. Atravessei aquele mar de gente na portaria e, por ser amigo do Pedro, me deixaram entrar no apartamento. Todo mundo com cara de bobo, ninguém acreditava, eu estava pasmo, mas, na minha frente estava aquilo lá, uma pedra, das grandes, uma pedra com a cara do Pedro! Com a cara dele, cara! Entende o que é isso? Eu não, eu não entendo.

sábado, 15 de abril de 2017

Feliz Sábado

Neste mesmo período do ano, por volta de dois mil anos atrás, os habitantes da Palestina, manipulados pelos detentores do poder e do alto status social, trataram como um criminoso e condenaram à morte um grande homem. A motivação de tamanho ato covarde foram as ideias que ele espalhava por aquela região, que colocavam em risco as suas regalias e projetos de poder. Achavam, na sua lógica simplória, que exterminando o homem acabariam com suas ideias. Mas não contavam que boas ideias e grandes verdades sobrevivem aos homens. 

Vemos que até hoje continuam a campanha contra tais ideias claramente libertadoras, que nos tirariam debaixo da tirania e sofrimentos que há milênios nos afligem os desgovernos, tanto dos nossos líderes sobre as nações quanto os nossos sobre nós mesmos. Desde aquele tempo nos manipulam através de expedientes ardilosos que nos afastam a capacidade de pensamento e reflexão. Ainda somos a massa de manobra imatura que prefere ver livre de punição o criminoso perigoso das nossas próprias culpas, do que ser chamada às responsabilidades dos próprios atos. Ainda somos quem lava as mãos na hora das escolhas difíceis e transfere a autoridade de decisão para da turba raivosa dos pensamentos egoístas e desejos desmedidos.

Não sejamos mais assim. É hora, e já é há mais de dois mil anos, de amadurecermos. É hora de seguirmos o outro exemplo dessa história, o do personagem que, ciente das suas responsabilidades no mundo, se dispõe a viver diferente, para o bem comum, enfrentando de cabeça erguida, com serenidade e sem esmorecer, os fortes golpes que receberá pelo modo de vida incomum.

Se não aprova o mundo como está hoje, assuma as rédeas da própria vida e a responsabilidade que lhe cabe. A solução e o exemplo estão aí, resumidas no vídeo abaixo. Basta segui-lo. Mude e mude o mundo.

Um feliz Sábado. Uma feliz vida inteira.


video

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Tudo morre para renascer

A beleza e a utilidade do símbolo vem, em grande parte, de sua elasticidade. Um símbolo pode ser adaptado a diversas realidades sem perder a sua essência e a mensagem que carrega. A humanidade já não cria mais símbolos tão complexos como os de antigamente, muito da linguagem simbólica que nos utilizamos hoje em dia já existe a milênios e foi criada pelas civilizações antigas do hemisfério norte. É uma pena não termos resgatado e mantido com a mesma atenção os símbolos das civilizações aqui do hemisfério sul.

A Páscoa é um desses casos. Data altamente simbólica, é comemorada durante o período no qual ela faz sentido: a Primavera. Nós apenas importamos a data, algo objetivo, e a comemoramos num contexto exatamente oposto: o Outono. Imagino que celebrar a Páscoa em sua época original facilita o entendimento e o sentimento do que ela quer dizer. Mas, como disse antes, por serem elásticos, os símbolos e sua mensagem, mesmo fora de contexto, devem ser considerados, conhecidos e refletidos.

Desde que se percebeu parte de um universo que funciona ritmado, a humanidade celebra este ritmo. As festas primitivas, em sua grande maioria, senão em sua totalidade eram demarcadas por eventos no céu ou na terra, eventos que indicavam um novo período, com novas dinâmicas de vida cuja observância seria, e ainda é, importante para manter a boa vida. Portanto, tais festas não teriam apenas um caráter comemorativo, mas também eram usadas, tanto para a reconexão com o pulso cósmico, quanto para agradecer a bonança ou se prevenir das dificuldades advindas do novo período. 

Celebrada na primeira lua cheia depois do equinócio de primavera – pois é uma celebração criada no Hemisfério Norte –, a Páscoa vem sendo celebrada pelos Judeus desde tempos imemoriais, quando já sacrificavam cordeiros. Simbolicamente, nos remete à fertilidade, e quando se fala em fertilidade, se fala no poder de dar vida nova, em renascimento, renovação e, portanto, em morte, sem a qual nada renasce.

Após o Inverno, onde nada floresce e tudo está sem vida, a Primavera traz consigo o renascimento, ano a ano, de todas as coisas, inclusive do calendário Astrológico, quando voltamos ao primeiro signo zodiacal, o de Áries. A lua cheia é o ápice da renovação da lua, que num ciclo menor, mês a mês, desaparece e reaparece, morre e renasce. E sabemos, desde muito antigamente, da potência que a lua cheia dá nos processos procriativos, tanto em plantas, cabelos ou trabalhos de parto.

E foi durante tal período renovador que aconteceu o êxodo dos Judeus, do Egito; quando o anjo da morte deixou de lado, pulou as portas das casas marcadas com o sangue de um cordeiro sacrificado, preservando os primogênitos da família que ali morava. Interessante lembrar que Egito, em Hebraico, é Mizraim, que significa estreiteza, prisão; e pular, em Hebraico, é Pessach, originando o nome atual da celebração : Páscoa. Poderíamos dizer, então, que a Páscoa Judaica celebra o dia que o anjo da morte pulou os Judeus, que ganharam a liberdade, dando-os, por sua fé, a possibilidade de uma vida nova.

Séculos depois, com a morte de Jesus Cristo durante as celebrações da Páscoa Judaica, por volta do ano 33 d.C, surgiu a Páscoa Cristã, que eleva o significado de renascimento a um novo patamar, o espiritual. Cristo tomou lugar do cordeiro a ser sacrificado e, também pela fé, venceu a morte, ressuscitando. Sendo a ressureição um fato ou não, a presença dela na narrativa bíblica nos traz mais um símbolo de renascimento, que sugere o processo de morrer para renovar-se, agora em Espírito, pois era espiritual toda a mensagem do Cristo.

Vê-se que, independente da roupa que vestimos a Páscoa, durante milênios, este período vem sendo sinalizado como importante data de renovação. É a hora em que o planeta Terra está todo alinhado com o Cosmo para renovar-se e, efetivamente se renovando, em todos os aspectos. É um convite ancestral para que aproveitemos a data e toda a sua energia para renovarmos a nós mesmos, como tudo na natureza. E se não há renovação sem sacrifício, que sejamos nós o nosso próprio cordeiro, sacrificando o humano velho, materialista, defasado e viciado, para que possa renascer, em nós, o novo humano, espiritualizado e harmonizado com o novo tempo e, no planeta, portanto, a nova humanidade.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Sobre calar-se

Imagino os arrepios de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) ao desfrutar dos atuais modos de difusão de informação, dando aquela olhada no Facebook, nos portais de notícias e semelhantes, pela internet. Ele que, em 1922, publicou o livro Tractatus logico-philosophicus no qual filosofava, entre várias coisas, sobre a Linguagem.

A linguagem é o meio de interação entre o mundo e os seres. É uma criação intelectual, um arcabouço de símbolos e significados que nos permite entender e significar o mundo, e a forma pela qual expressamos nossas impressões dele. Portanto, todo entendimento, toda construção social e cultural é dada através da linguagem em suas mais diversas formas de manifestação.

Entendendo a limitação da linguagem, por ser vinculada à nossa capacidade intelectual limitada, Wittgenstein acreditava que "o método correto, em filosofia, seria propriamente: nada dizer a não ser o que pode ser dito”, cunhando, assim, célebre máxima: "sobre o que não se pode falar, deve-se calar", à priori sobre as coisas transcendentes, além da nossa compreensão, assuntos que ele nomeia de "Místicos", mas eu não deixaria de lado a sugestão e aplicaria tal regra à qualquer assunto. Portanto, seguindo esse raciocínio, conclui o filósofo que não existem problemas filosóficos genuínos, pois estes são resultados de confusões, distorções de conceitos, gerados pela nossa limitada capacidade de entendimento do universo. Ou seja, o fato de não entendermos a real mecânica da realidade, não significa que ela tenha problemas. As problemáticas filosóficas profundas, são criações nossas, pela nossa incapacidade de transcender.

Sugere, então, Wittgenstein, uma postura de fé sem palavras, de controle da nossa tagarelice, de silêncio respeitoso frente à questões de dimensão místicas, transcendentes, que estão fora do nosso alcance intelectual, sob risco de incorrer em erro, problematizando o que não é um problema de verdade.

Reconhecer o indizível, o inexprimível não é novidade. Os Egípcios já manifestavam essa postura respeitosa em alguns templos, nos quais a figura do Deus dos Deuses, a Suprema Causa de Tudo,  nunca era iluminada pelo sol, ao contrário das outras figuras, que eram iluminadas, cada uma em uma época do ano, simbolizando que, havia coisas que a luz do conhecimento jamais iluminaria. O mesmo símbolo nos acompanha nos "Santo dos Santos" do Templo dos hebreus; que nos remete ao interior mais recôndito da nossa alma, à escuridão do infinito do Universo ou no microcosmo intangível das partículas minúsculas. Tudo nos sugere a existência de uma mecânica além da nossa compreensão e fora do nosso controle, frente à qual só nos resta o silenciar, o ouvir e nada falar.

Como na letra de João Ricardo e Luhli, para a belíssima canção "Fala", do álbum de 1973 dos Secos & Molhados. Decerto é uma letra sobre o momento certo de falar e de calar, escolhendo o silêncio nos casos de reconhecida ignorância. Sinal de humildade. Então, gostaria, aqui, de deixar a sugestão para que tenhamos a mesma postura humilde frente ao Universo: antes de montarmos em nossa arrogância e orgulho, que prefere teorias absurdas à possível simplicidade das verdades, silenciar humildemente, e apenas ouvir o infinito, senti-lo, assumindo que existe, no invisível, o inalcançável, o indizível.




Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser 
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala 

Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
Fala


sexta-feira, 31 de março de 2017

Acalme-se


Os mecanismos biológicos, psicológicos e sociais aos quais estamos submetidos nos aprisionam em uma realidade material de pequenez sofrível. São inevitáveis, mas necessários, pois resultam dos milênios de evolução do nosso corpo na interação com a matéria que nos cerca. Entretanto, no caminhar da Ciência, descobrimo-nos menos materiais a cada passo. Há tempos o átomo não é mais a partícula fundamental de tudo; existe mais espaço do que partículas em tudo, e essas partículas sequer são qualquer coisa próximas de sólidas; e se não há solidez real, fluímos, não existe limite entre o meu corpo e qualquer outra coisa. Enfim, é cada vez mais difícil ser cientificamente materialista.

Todavia, ainda carregamos angústias resultantes dessa visão antiquada da existência. Ainda presos ao sensorial primário, nos tornamos densos e tristes pela nossa postura mental equivocada frente à nova realidade que se descortina, dia-a-dia, através da Ciência e das nossas experiências íntimas, desapercebidas em meio aos tantos estímulos físicos que nos rodeiam.

Qualquer um dos desconfortos modernos pode ser vencido através de um ponto de vista mais atento a esse novo paradigma de realidade, deixando lado preconceitos, orgulho e o costume da pouca reflexão séria. Mas, se a ciência ainda é terreno difícil de se enfrentar na caminhada, podemos encontrar tais conceitos importantes na sabedoria popular que, de forma simples, facilitam mergulhos profundos no universo que nos cerca.

Recolhi a fábula abaixo numa dessas conversas que duram horas e se fala sobre tudo. O prazer de ouví-la, a beleza da mensagem que ela traz me faz bem até hoje, e fará ad aeternum. Ela traz uma verdade que, ao contrário do que nos acostumaram a pensar, não dói. A verdade cura, liberta e nos faz sentir bem. Quer ver? Repare como você se sentirá ao terminar de lê-la.

Duas ondas amigas seguiam juntas, fluindo em direção à praia. É o que fazem as ondas. A onda maior, lá do alto de seu volume, estava bastante depressiva e contrariada, enquanto a menor seguia, tranquilamente, ali embaixo.

– Se você pudesse ver o que eu vejo daqui, você não ficaria tão feliz assim. – disse a onda grande disse à onda pequena.
– E o que você vê? – perguntou a onda pequena.
– Não muito longe, vamos nos despedaçar na praia, e vai ser o nosso fim.
– Oh, isso? Tudo bem.
– O que? Como assim, tudo bem? Você está louca? – retrucou a maior.
– Não, não estou louca. Eu sei de um pequeno segredo que me faz ter certeza de que tudo está e continuará bem. – respondeu a tranquila onda pequena, que continuou:
– Quer saber também?

A onda grande ficou curiosa, mas desconfiada, e disse:

– Sim... mas, que tipo de sacrifício vou ter que fazer pra saber desse segredo? Vou ter que meditar durante anos pra entendê-lo?
– Que nada! É algo muito simples, bastante evidente, até. – respondeu, confiante, a menor. 
– Mas como é que algo é simples e evidente e, ao mesmo tempo, um segredo?
– Você tem razão. É que se fossemos mais atentos, não seria segredo pra ninguém. Só o é pela nossa descuidada falta atenção.
– Ora, se é assim tão simples, diga-me logo! Qual seria esse segredo tão consolador? – indaga a onda maior, com extrema curiosidade.

Então, tranquila e carinhosamente, a onda menor responde:

– Fique tranquila com a praia, amiga. Nós não somos onda, nós somos água.



sexta-feira, 24 de março de 2017

Ouvidos de Ouvir

Surdo do ouvido direito desde que nasci, busquei, junto da minha família, as mais variadas formas de cura na medicina tradicional, alternativa e, também, na espiritual. Neste domingo passado, enquanto passava um café, peguei-me lembrando desse périplo pela cura, durante o qual, desde muito jovem, presenciei e conheci os mais diferentes tipos de procedimentos, pessoas e crenças. Talvez, por isso, nunca me senti deslocado ao interagir com qualquer tipo de modo de vida espiritualista. 

Entre as boas lembranças, resgato alguns fatos de maior relevância, como as visitas que fiz à Casa de Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO), local onde o médium João Teixeira de Faria, intermedia ações de mais de 30 entidades espirituais com o propósito de cura. Apenas caminhar pelo local já é terapêutico, mas quem busca algo mais deve passar por consultas com o médium e seguir algumas recomendações dadas por ele. E foi o primeiro encontro, numa dessas consultas, que se gravou mais forte. Com um olhar tranquilo, mas que parecia me sondar em minúcias, ele pegou na minha mão e disse: "Não se preocupe, eu vou te curar, meu irmão".

Fiquei mais confiante ainda depois de vê-lo fazer, bem de perto, várias intervenções físicas – não fazem mais esse tipo de procedimento – que deveriam doer, incluindo incisões com bisturi, visivelmente profundas, tudo sem anestesia, nenhum gemido e pouco, ou até mesmo nenhum, sangue. Se quem faz isso diz que vai me curar, decerto irá. A juventude não me deixou seguir as recomendações por muito tempo, não fiz as tais "cirurgias", e parei de ir até lá.

Pensava agora, já tomando o meu café, o quanto minha visão sobre o vetor da cura mudou. Antes, acreditava que ela viria apenas de algo externo à mim, com aquelas intervenções físicas e espirituais. Hoje sei que a cura depende de processos interiores, quando abandonamos a culpa e, nos considerando merecedores de ajuda, aceitamos e agimos para sermos curados. Desta forma, diz a própria medicina tradicional, potencializamos e facilitamos muito todo o processo.

O que os religiosos chamam, há séculos, de fé – aquela que move montanhas – os médicos, atualmente, começam a chamar de postura mental positiva e, enfim sugerir como parte do tratamento. Hoje, sabemos, enfim, que uma forte intenção mental pode fazer a diferença entre resolver o problema ou fazer um remendo.

Já se foram vinte anos daquela visita. A surdez continua, agora acompanhada de zumbidos no único ouvido bom. Mas posso garantir que ouço cada vez melhor com ele. Tanto fisicamente, confirmam os médicos e os amigos músicos, quanto espiritualmente, pois além de ouvir melhor a tudo e a todos, finalmente consigo ouvir à mim mesmo.

Se o pior cego é o que não quer ver, o pior surdo é o que se nega a escutar. Percebo, cada vez mais claramente, que eu mesmo estou realizando grande parte da cura prometida em Abadiânia. Agora entendi o que me foi oferecido. Tenho ouvido melhor do que nunca e a cada dia melhor ainda. Espiritualmente, mas, ora, de que me serve um corpo perfeito com um espírito doente? É por isso que, primeiro, cura-se o Espírito.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Ações e Reações

Na semana passada, o jornalista Robert Kelly passou por uma saia justa quando, durante uma entrevista para a mundialmente renomada rede BBC de radio e telejornalismo, seus filhos, desavisadamente, invadiram a sala da sua casa, na qual ele estava fazendo a transmissão. O fato foi amplamente divulgado e a família Kelly se transformou no mais recente xodó temporário mundial.

Não fosse por uma atitude do jornalista, tal vídeo passaria por mim como mais um qualquer, dos milhares que circulam por aí, entretanto, quando Kelly, instintivamente, sem sequer olhar para usa filha a afasta com o braço, acendeu-me um lembrete, algo que eu não tinha pensado antes e algo que me passaria desapercebido se não fossem algumas leituras que tenho feito: nós nos preocupamos muito com as nossas ações, mas nos esquecemos de vigiar as nossas reações.

Não julgo a atitude de Robert Kelly, muito menso sugiro como ele deveria ter agido. Eu o entendo. Posso imaginar a imensa pressão pela qual passava no momento, os dias de preparação e planejamento de cada palavra a ser dita, do melhor terno e gravata a ser usado, dos livros escolhidos para compor o cenário, e etc. Não contava ele com a interrupção imprevista, pelas pessoas que ele mais ama, seus próprios filhos. Uso este fato do amigo inglês apenas como ponto inicial de uma reflexão sobre mim mesmo e de como não estamos atentos a tudo o que fazemos.

Desde de que começamos com pensamento racional acerca da existência e das formas de se viver a boa vida, a filosofia e o pensamento religioso nos tem dado várias fórmulas que, independente das palavras utilizadas, nos sugerem uma vida honesta, caridosa e amorosa com todos ao nosso redor. Portanto, devemos ser atentos a o que fazemos, como e quando fazemos. Planejando e executando boas ações e pensamentos, receberemos o mesmo em contrapartida.

Planejar e ensaiar, com antecedência, para que nossas ações sejam sempre amorosas e caridosas é o mínimo que deveríamos fazer, é até fácil se compararmos com reagir aos imprevistos, muitas vezes assombrosos, e manter a mesma postura ética e honesta. Pra isso precisamos de ainda mais treino e atenção. Vejamos o exemplo dos lutadores de artes marciais que, preocupados com a qualidade dos seus movimentos em qualquer situação, treinam exaustiva e minuciosamente cada golpe, para que no caso de ser pego de surpresa, o golpe saia, automaticamente tão bom quanto se houvesse sido planejado de antemão.

É o ato reflexo que nos diz quem realmente somos, ele entrega a nossa verdadeira programação mental. Robert Kelly, um pai certamente carinhoso, como demonstrou em vídeo posterior, num momento de desatenção e nervosismo, agiu nada carinhosamente; assim como alguém que prega o amor e a caridade, quando é fechado no trânsito, e explode em insultos contra o irmão equivocado; ou a mãe exemplar que, ao comentar as notícias, sugere que matem os filhos desencaminhados de outras prováveis mães exemplares; e até mesmo eu – e imagino que não só eu –, quando ao ser abordado por um irmão mais desafortunado, antes mesmo de perguntar o como posso ajudá-lo, já nego a ajuda, sequer examino se tenho algumas moedas no bolso, condições de lhe pagar um prato de comida, dar a informação ou consolo que precisa ou, apenas, um sorriso e um desejo de melhor sorte, pequeno gesto que me custa pouco, mas vale muito.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Resistência

Resistência é a característica de quem resiste. Vem do Latim resistentia que, por sua vez, se origina do verbo, também latino resistere, formado pelo prefixo re (para trás, contra) somado ao radical sistere (ficar firme, manter posição). Portanto, resistir, o verbo de quem oferece resistência, significa: "conservar-se firme; não sucumbir, não ceder".

Longe de ser algo ruim, a resistência é parte fundamental de qualquer processo. A resistência das pedras, das irregularidades do solo e demais obstáculos criam as ondas dos rios e mares, que ajudam na oxigenação da água. Graças à resistência do ar é que temos as ondas sonoras, que me permite estar ouvindo, enquanto escrevo, essa coisa linda que é o Improviso n.3, do Franz Schubert. E, no plano das ideias, é graças às resistências ideológicas que concebemos ideias melhores. Enfim, resistir é dar cores, sons e velocidades diferentes ao mundo, enriquecendo a existência.

Mas vale observar que resistir não é atacar, é permanecer forte e convicto perante a força contrária. E a sabedoria da resistência está na resiliência, outra palavra originada no Latim, pela soma, do nosso já conhecido prefixo re com salire (pular), significando "pular de volta, ricochetear". E foi na física que encontrei o melhor conceito de resiliência: "propriedade do material de retornar à forma ou posição original uma vez cessada a tensão sobre o mesmo".

Por séculos, muitos disseram, e muitos ainda dizem, que resiliência é coisa para fracos. Entretanto, conhecendo melhor o significado das palavras, a lógica nos mostra que, o nosso conceito de forte está equivocado, pois a questão não é simplesmente aguentar um golpe, mas, sim, suportar uma infinidade deles e continuar em pé, e se restabelecer por completo. Como num exemplo muito utilizado pelos orientais: uma vara de bambu, fina e delicada, por se balançar a cada brisa é julgada, por muitos, como mais fraca do que uma frondosa árvore de largo tronco, que permanece sempre firme, imóvel. Mas é o bambu, com sua delicadeza e maleabilidade que sobreviverá às grandes tempestades, pois se adapta à força do golpe até conseguir restabelecer-se na posição original; ao contrário da "forte" árvore que, por não saber curvar-se, desviar, adaptar-se, extenuada, inevitavelmente virá ao chão.

Ataque gera contra ataque, numa guerra que só termina quando uma das partes for eliminada. A resistência sábia, através da resiliência, geram adaptação, elevando os lados conflitantes a novos patamares, e mesmo que sejam, ainda, conflituosos, serão níveis mais elevados de contenda.

O importante aqui é observar que o movimento que fazemos contra o que nos incomoda não precisa ser duro, belicoso, inflexível, pois esse tipo de movimento, como comprova a física e a vida, só termina com a eliminação dolorosa de um dos oponentes. Entretanto, resistir resilientemente, com flexibilidade e paciência, tomando ações firmes quando necessário, mas inteligentes e suaves sempre, nenhum dos oponentes será eliminado, mas ambos se adaptarão ao convívio, se complementando e se auxiliando nesse processo inevitável, irresistível.

domingo, 5 de março de 2017

Sideral


Por não mais ir amar-te
Fiquei, destarte, soturno
Sem brilho, sem vida, o só
Que sem rumos se enterra

Por tão triste que isto seja
Ver-nos juntos, na memória, ainda dói
Já optei pela distância
Me curo, assim, melhor

E sigo, mesmo com a alma urrando
Ainda que me faça chorar o céu noturno
Pois, enquanto busco outras estrelas,
Ofuscando a todos os corpos celestes, ainda vejo-a nua

sábado, 4 de março de 2017

Sonhava...

Sonhava...
Com ternura nos devorávamos
Em carícias desconcertantes
Entre gozos nos beijávamos
Ruidosos gemidos
Incontroláveis espasmos
Enganchavam-nos pele e pelos
E juras de eterno amor e zelo

Acordei esbaforido, em desespero...
Ai, meu deus, que pesadelo!

sexta-feira, 3 de março de 2017

Quitação


Pelas cobranças que me chegam
E os cobradores que se me mostram
Tenho certo: é alta a dívida!

Adquirida pelos séculos desregrados
Do viver desequilibrado
De paixões insubmetidas

Por isso o trabalho constante
Do muito dar sem nada em troca querer
Pois recebido, sei, já tenho bastante

A eterna moratória
Eterna misericórdia
Pelo eterno trabalho do amor e do perdão

É a paga jubilosa
Chance nova e grandiosa
Para todo coração


quarta-feira, 1 de março de 2017

Sobre compreender


"Os que envelhecem não compreendem o valor das ilusões que perderam; os jovens não dão valor à experiência que ainda não tem."


Em discurso na sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras, no dia 20 de Junho de 1897.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Consciência limpa

Um sono e um despertar tranquilo é o resultado de uma série de pensamentos e atitudes positivas na vida. Quem não deve, não teme! Inclusive à própria consciência, o maior e pior carrasco que qualquer um de nós pode ter. Não gostaria de estar na pele de quem passa por cima das próprias verdades, das verdades da vida e das Leis, para conquistar um naco a mais de poder ou status, como andam fazendo a nossa classe política.

Se o que fazem não lhes gera problemas na consciência, é uma questão de tempo para que venham a tê-los pois, no mínimo, estão plantando, eu seus inconscientes, uma semente de sofrimento ou, no mínimo, de uma bela insônia. Por mais mal intencionados que sejamos, todos temos, no fundo de nosso ser, a noção do que é certo e o que errado. E a alma vai gritar e doer até que a ouçamos e mudemos nossas atitudes.

Combater e eliminar o que gera a culpa em nós mesmos é uma questão de esforço pessoal, de controle todo nosso. Faz tempo que não são mais segredos os benefícios do auto-conhecimento. Há tempos recebemos tais recomendações; há tempos yoguis, monges, filósofos, místicos, homens santo e comuns colocam-se em exílio do mundo para a meditação e melhoria de si.

Entretanto, mesmo saneado o nosso espírito, não há pessoa justa que permaneça em verdadeira paz quando olha para fora de si e vê o resto mundo longe de estar no mesmo processo. E isso também nos tira o sono.

Como expandir a paz interior que tenho e que me faz tão bem a todos aqueles que amo e ao ambiente que me cerca? Como fazer isso e não perder a calma que conquistei com tanto trabalho, ao me expor à essa enxurrada de golpes que o mundo diariamente nos aflige?

No livro "Vinha de Luz", no capítulo 86, Emmanuel, através de Chico Xavier dá a dica, citando Jesus Cristo: "Não andeis, pois, inquietos.” (Mateus, 6.31). E continua:


"Jesus não recomenda a indiferença ou a irresponsabilidade. O Mestre, que preconizou a oração e a vigilância, não aconselharia a despreocupação do discípulo ante o acervo do serviço a fazer. Pede apenas combate ao pessimismo crônico.
 ... 
Ainda nos defrontaremos, inúmeras vezes, com pântanos e desertos, espinheiros e animais daninhos. Urge, porém, renovar atitudes mentais na obra a que fomos chamados, aprendendo a confiar no Divino Poder que nos dirige.

Em todos os lugares, há derrotistas intransigentes. Sentem-se nas trevas, ainda mesmo quando o Sol figura no zênite. Enxergam baixeza nas criaturas mais dignas. Marcham atormentados por desconfianças atrozes. E, por suspeitarem de todos, acabam inabilitados para a colaboração produtiva em qualquer serviço nobre.

Aflitos e angustiados, desorientam-se a propósito de mínimos obstáculos, inquietam-se, com respeito a frivolidades de toda sorte e, se pudessem, pintariam o firmamento à cor negra para que a mente do próximo lhes partilhe a sombra interior."

Combatamos o pessimismo crônico! Não nos rendamos, muito menos sejamos os derrotistas de plantão. Unamo-nos e nos inspiremos uns aos outros com nossas boas atitudes. Desta forma, inspiraremos ao próximo com bons exemplo. Os bons não somos poucos, só precisamos deixar de ser tímidos.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

No Interior


Cheguei na beira do porto onde as ondas se 'espaia'
As 'garça' da meia-volta e senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia

Quando eu vim da minha terra, despedir da 'parentaia'
Eu entrei no Mato Grosso, bem em terras Paraguaias
Lá tinha revolução, enfrentei forte 'bataia' 

A tua saudade corta como aço de 'navaia' 
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia' 
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia' 


Cuitelinho é como se chama o Beija-flor em algumas partes do Brasil interiorano, e também é o nome dessa belíssima canção, composta por Bento Costa, em 1932. Dizem que ganhou notoriedade depois que Paulo Vanzolini, famoso biólogo e compositor (de "Ronda", "Volta Por Cima") a trouxe para os holofotes. Disse o próprio Vanzoline que, durante uma pescaria na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, seu amigo Antônio Xandó chamou sua atenção para a bela canção que um barqueiro cantava. Inspirado pelo primeiro verso que ouvira, compôs os outros dois. Do Bento Costa, pouco se sabe.

Não escondo o sentimentalismo, e fica cada vez mais evidente que a saudade é um dos meus temas favoritos. Na Cuitelinho as saudades vêm de um soldado brasileiro que abandona a família para ir lutar na gerra do Paraguai (1864-1870) ou, pelo menos, é o que se dá a entender.

No meio das saudades todas que ele carrega, surge o que, na minha opinião é a melhor descrição dos efeitos da saudade que já constou no cancioneiro popular brasileiro. Falo do terceiro verso, que repito aqui:

A tua saudade corta como aço de 'navaia'
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia'
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia'

A beleza poética da imagem é imensa, mas é delicadamente escondida atrás da linguagem simples. Simples, como é simples sentir saudades; como é simples o personagem que entoa os versos. O dialeto caipira e, em algumas versões da música, o som choroso do ponteado da viola caipira, potencializam muito as emoções dos versos. A soma disso tudo me remete às minhas próprias saudades dos tempos passados no interior, nas casas e sítios da 'parentaia' do Norte Pioneiro do Paraná.

Me emociona, também, como graças à poesia e a cultura popular, conseguimos acessar esse microuniverso sentimental de um evento gigantesco que foi a gerra do Paraguai, considerada, inclusive, o maior conflito armado que já houve na América do Sul. Também foi o mais sangrento. Entretanto, no meio de tiros de canhão e gritaria, havia ali, num coração surpreendido pela batalha, decerto aflito, um santuário de calmaria e saudade, um relicário, um altarzinho aconchegando tudo aquilo que se ama.




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Apocalípse Particular


Por muito tempo, o único Apocalipse que me deixou realmente perplexo foi esse aí de cima,
que matou o Superman em 1995.


Em 2012, já sabendo da minha inclinação em estudos místicos e maluquices conexas, me perguntaram sobre o que eu achava que iria acontecer no fim daquele ano, quando as famosas datas apocalípticas de diversas culturas, o que incluía o famoso calendário Maia, chegariam ao seu termo em nosso calendário greco-romano. 

Respondi que seria algo moral, que o tal apocalipse seria uma sequência de eventos que duraria anos e não teria nada da pirotecnia que consta nas profecias das diversas culturas que dele falam. Tais eventos colocariam a humanidade em xeque e obrigaria todas pessoas do mundo a reverem seus conceitos de moral e ética. O ano de 2012 seria apenas o início dos eventos, da contagem regressiva para a nossa auto-extinção, a extinção do humano antigo para o nascimento do novo humano.

Apocalise, em grego, significa "tirar o véu", "revelar". E, desde muito antes do Apocalipse de João, a revelação mais famosa do ocidente, que existe essa ideia de um final dos tempos, de um juízo final, onde o velho e corrompido deve perecer em favor do novo e purificado. A linguagem simbólica, muitas vezes hermética nesse tipo de texto, talvez seja proposital pois não descreve fatos específicos, mas, sim, padrões. Desta forma permite diversos níveis de interpretação, fazendo com que os mesmos eventos possam ser aplicados ao universo, ao planeta, a uma nação ou a um só indivíduo.

Mesmo assim, a humanidade sempre tentou conectar fatos como a queda do Império Romano, a Segunda Guerra Mundial, a morte ou eleição de um Papa, etc. Se entendermos que o resumo do apocalipse é a falência e queda de um regime antigo e a instalação de um novo, fatalmente encontraremos correspondências em toda a história, afinal, tudo isso é cíclico, acontece de tempos em tempos.

Existe algo interessante na dinâmica dos ciclos: os ciclos menores influenciam os maiores e vice-versa, e assim infinitamente, como no mecanismo de um relógio mecânico e suas centenas de engrenagens. A situação calamitosa do Brasil, por corrupção e desonestidade é uma grande engrenagem, influenciadora e influenciada por engrenagens menores, como a onda de saques no Espirito Santo, na última semana; que se desdobra individualmente em cada um de nós e as pequenas desonestidades diárias. Por não percebermos essa troca de influências, essa rede de causa e consequências, não pensamos em nossos atos singulares, transferindo a responsabilidade para a outra engrenagem do sistema.

Vemos a situação insustentável que chegamos moralmente. Me parece uma clara indicação de que precisamos tomar providências reais e urgentes. Aproveitando o simbolismo do tema e, como um exercício de interpretação, pensemos em fazer o nosso apocalipse particular, retirar o véu materialista que cobre os nossos olhos. Veremos os Cavaleiros do Apocalipse éticos e morais que já estão aí, trazendo mazelas para o nosso mundo interior; os nossos sete selos, os nossos sete chacras principais, deverão ser abertos, um a um, e tomaremos conhecimento do que contém. Assim, harmonizaríamos o nosso ser novamente e, no tempo da abertura do sétimo selo, o mais elevado, o coronário, as trombetas da nossa consciência seriam ouvidas feito um trovão imenso e tudo o que é velho desmoronaria, abrindo espaço para um novo e purificado ser, pronto para uma nova e purificada realidade.