sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Amor pelas paredes

Tarde da noite, voltando pra casa, cansado por um dia inteiro de trabalho, deparei-me com esse soneto em uma das paredes do metro Vila Madalena, aqui em São Paulo. Ele é nomeado pelo seu primeiro verso, pois o seu criador, o grande Luís Vaz de Camões (1524 - 1580), não colocava título em seus sonetos.


Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, é tudo vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.


Depois de alguns minutos de maravilhamento, percebi que, sem mencionar sequer uma vez a palavra amor, Camões descreve o que seria o tipo de amor mais bonito, que poucos acreditam existir e, até mesmo, se aventurar a experimentar. É um patamar do sentimento quando ele subsiste por si, se retroalimenta, que é seu próprio motivo e finalidade. Amor que se dá pelo simples motivo de que se dar amor é bom, por isso não depende de qualquer tipo de retribuição, presente ou futura, de quem quer que seja.

Desvinculado de qualquer motivação externa a si mesmo, esse tipo de amor sobreviveria ao tempo, à inevitável hora quando a jovem e bela companhia se transformar no velho e retorcido transtorno; permitiria, mesmo ausente o companheiro, estar presente o carinho, a lealdade e a fidelidade; e, destituída a posse doentia, inexistiria o ciúmes venenoso.

Este deveria ser, e talvez seja, o amor ao qual todos deveríamos buscar. Esse que, quanto mais se dá, mais se quer dar, como se vertesse de uma fonte infinita. É claro que nessa busca é preciso atenção e coragem. Sentimentos e necessidades psicológicas e físicas podem nos enganar, e nos levar a perceber, tarde demais, pelas dores, que o que achávamos amor não era nada além de tesão e vaidades, que os amores eram, na verdade troféus. Para que isso não aconteça, sugere-se sempre, antes de tudo, conhecer-se e saber sobre o que se passa dentro de si, o que se deseja da vida. Nada mais do que o exercício básico de um viver consciente.

Mas, independente dos riscos que corremos, das maldades do mundo, e da inevitabilidade dos tropeços, a mensagem primordial que me tocou fundo o coração através do soneto de Camões, é que ser amado é secundário, é resultado. O que não se pode, nunca, de forma alguma, por motivo algum, é ter medo de amar.

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