sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Inspirações



Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

                                                (Emergência, de Mário Quintana)


Tenho me voltado à poesia como quem se volta para a luz do sol após dias nublados. Como quem persegue aquele mísero raio de luz que, tímida, mas heroicamente, escapa por entre as nuvens e atinge a terra úmida e fria, que até então mortificava corpos e almas, para nele se aquecer, respirar fundo e, de braços abertos, peito estufado, deixar-se aconchegar em todas as dimensões do ser.

Insisto no poema como fator conectante entre o humano e o infinito; como uma estrada para o Belo, entre o que humanamente idealizo e o que infinitamente é; percurso que, em sinuoso aclive, descortina cada vez mais amplas e completas paisagens a se descrever; como construção íntima; como jornada de purificação.

Salvo-me nos versos como um naufrago em tudo o que flutua; como no colo de uma mãe, ou no abraço de um pai; na mão amiga que guia; na palavra de consolo que acalma; na brisa que acaricia a face; na segurança da chuva que disfarça a lágrima e lava a alma.

Se na vida rimas ou não rimas, é opção que ela mesma traz, tanto faz. Mas o ritmo, esse sim, inevitável capataz, açoita quem destoa da cadência, sem não antes avisar. Mas por ser, também, amigo, premia sempre a quem souber dançar.

É por isso que a arte é necessária à vida, como a pausa à música e, ao texto, o ponto e a vírgula. É preciso despertar-se ao sensível, ao invisível, ao metafísico. Redescobrir o que não se vê, saber dizer o que não se diz, tocar o intangível. Reconectar-se com essa esfera sutil por onde comunicamos tanta coisa, mas que, num oceano de amor revolto, em meio a tantas e turbulentas ondas de rancor, as inúmeras marolas de carinho passam despercebidas.

Acalmemos os amores, meus amores. Controlemos os tsunamis da paixão, acabemos com os vendavais, os tremores e a gritaria. Atentemo-nos às leves marolas, à brisa carinhosa, aos suspiros pacíficos da paz que nos convida incansavelmente a comungá-la. Ela não está distante, ela fala baixo. Sejamos nós os poetas ou os poemas, os artífices ou a matéria-prima, inspiremo-nos! Ouçamos, em silêncio, o Universo a recitar-se amorosamente.

domingo, 23 de outubro de 2016

Rachmaninoff : Piano Concerto n.2 em Dó menor, Op.18


Após receber péssimas críticas ao o seu primeiro concerto, o russo Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) entra em uma profunda depressão e bloqueio criativo que duraram vários anos. Ao sair desse tenebroso ciclo, compõe essa excelente peça, que é o Concerto n.2 em Dó Menor que, inclusive, é dedicado ao médico Nikolai Dahl, figura importante na sua recuperação psicológica. Considerada uma de suas melhores e mais famosas peças, foi tão aclamada que colocou o compositor, finalmente, entre os grandes concertistas da história. 

O segundo movimento é uma das coisas mais lindas que já ouvi na vida. Imbatível, de tirar lágrimas e arrepiar até os mais embrutecidos, com um tema melancólico e leve, que começa na flauta, toma forma no clarinete e vai crescendo e respirando até contagiar toda a orquestra e cada célula de quem está ouvindo.

Na música, as tonalidades menores são consideradas tristes, enquanto as tonalidades maiores são consideradas felizes, ensolaradas. Então, também é muito simbólico o concerto ter sido escrito em Dó menor. Mas, o mais bonito de tudo, é que o concerto começa em Dó menor e termina em Dó maior, como se simbolizasse, no desenvolver da peça, a luta e a vitória do compositor sobre a sua depressão.

Nas primeiras apresentações desse concerto, entre 1900 e 1901, o próprio Rachmaninoff foi o solista, ao piano. Nesse vídeo podemos ver a destreza e a maravilhosa interpretação da Anna Fedorova, ao piano, com a Filarmônica do Noroeste Alemão (Nordwestdeutsche Philharmonie), com regência de Martin Panteleev.


Sério... durante o segundo movimento, separe um lenço.





sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Amor pelas paredes

Tarde da noite, voltando pra casa, cansado por um dia inteiro de trabalho, deparei-me com esse soneto em uma das paredes do metro Vila Madalena, aqui em São Paulo. Ele é nomeado pelo seu primeiro verso, pois o seu criador, o grande Luís Vaz de Camões (1524 - 1580), não colocava título em seus sonetos.


Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, é tudo vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.


Depois de alguns minutos de maravilhamento, percebi que, sem mencionar sequer uma vez a palavra amor, Camões descreve o que seria o tipo de amor mais bonito, que poucos acreditam existir e, até mesmo, se aventurar a experimentar. É um patamar do sentimento quando ele subsiste por si, se retroalimenta, que é seu próprio motivo e finalidade. Amor que se dá pelo simples motivo de que se dar amor é bom, por isso não depende de qualquer tipo de retribuição, presente ou futura, de quem quer que seja.

Desvinculado de qualquer motivação externa a si mesmo, esse tipo de amor sobreviveria ao tempo, à inevitável hora quando a jovem e bela companhia se transformar no velho e retorcido transtorno; permitiria, mesmo ausente o companheiro, estar presente o carinho, a lealdade e a fidelidade; e, destituída a posse doentia, inexistiria o ciúmes venenoso.

Este deveria ser, e talvez seja, o amor ao qual todos deveríamos buscar. Esse que, quanto mais se dá, mais se quer dar, como se vertesse de uma fonte infinita. É claro que nessa busca é preciso atenção e coragem. Sentimentos e necessidades psicológicas e físicas podem nos enganar, e nos levar a perceber, tarde demais, pelas dores, que o que achávamos amor não era nada além de tesão e vaidades, que os amores eram, na verdade troféus. Para que isso não aconteça, sugere-se sempre, antes de tudo, conhecer-se e saber sobre o que se passa dentro de si, o que se deseja da vida. Nada mais do que o exercício básico de um viver consciente.

Mas, independente dos riscos que corremos, das maldades do mundo, e da inevitabilidade dos tropeços, a mensagem primordial que me tocou fundo o coração através do soneto de Camões, é que ser amado é secundário, é resultado. O que não se pode, nunca, de forma alguma, por motivo algum, é ter medo de amar.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Comentário sobre o poema Caro Data Vermibus


Este é um poema que gosto muito. Primeiro, por ser bonito; segundo, pela sua feitura ter sido um processo longo. Finalizá-lo foi uma alegria imensa.

Da sua concepção, num papel rascunho do "Ministério Público do Paraná, em 2001, ao seu fechamento, para o livro, em 2013, descontados uns prováveis e não mais do que 4 anos de gaveta, foi quase uma década. Sim, talvez o poema mais demorado que já fiz. Mas foi, realmente preciso vivenciar muitas coisas para condensar as idéias e imagens que ele me pedia. Foram anos de tentativas e retomadas e desistências na lida com estes versos.

É um poema que retrata um amadurecimento: do desespero do jovem desiludido ao racionalismo do quase adulto, ainda desiludido, mas um tanto mais forte.

Quase 10 anos em 14 versos. Até eu mesmo fico espantado!

Aproveite e leia o poema: Caro Data Vermibus

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A vida como obra de arte


No recém formado Estado Alemão, oficialmente unificado em 1871, surgiu a necessidade de se criar uma cultura em comum para que houvesse uma ligação cultural entre todos os territórios e, assim, surgisse o sentimento de nação entre todos. Para esse esforço se colocaram ao trabalho grandes intelectuais e artistas alemães, dentre eles, Friedrich Nietzsche e Richard Wagner.

Apesar da imagem de velho ranzinza que criaram de Nietzsche, havia na sua filosofia essa busca pela perfeição do homem e das ideias, de equalizar o que se pensa com o que se faz. Nada de novo! Afinal, desde que a humanidade descobriu o pensamento que se busca esse caminho para uma vida mais confortável e justa, mais perfeita o possível. E, para Nietzsche, essa busca pela perfeição da vida, era a mesma busca do artista. O que Wagner fazia na arte, tentando criar a arte completa, onde música, teatro, literatura e o que mais existisse, pudessem, unidos, se potencializar, criando uma forma de arte perfeita e potente, era o que todos deveriam fazer na vida, através do pensamento, unificar e dar coerência às ideias e atitudes, transformar o homem comum no Além-Homem, ou Super-Homem (Übermensch), perfeito e potente, como deveria ser a Nação Alemã.

Apesar de controversos os conceito do belo e do perfeito, podemos senti-los em intuições, na alma ou no subconsciente, quem sabe até mesmo no inconsciente. Por mais que busquemos realizar estes sentimentos e intuições, jamais conseguimos reproduzi-los na matéria que manipulamos, pois o perfeito e o belo são intangíveis. E a beleza dessa busca está justamente nessa intangibilidade, na impossibilidade de se materializar o objetivo, pois o esforço nunca termina, há sempre algo mais a melhorar.

Nietzsche, o velho ranzinza, se iguala, então, aos poetas como Neruda, Rimbaud, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e, também, aos profetas, como Confúcio, Lao Zi, Buda, Jesus Cristo (que ele tanto combatia) na campanha por essa busca do melhorar-se e melhorar o mundo e, como ele mesmo disse, de considerar a "vida como obra de arte". 

Como não lhe dar razão? O processo da arte é um eterno revisar, aparar de arestas, repensar e refazer. Transpor isso para a vida é maravilhoso, dá ânimo. Considerar a vida como uma obra de arte à caminho do belo, eternamente a se melhorar, em busca da atitude perfeita no melhor lugar, feito palavras de um poema, ou cores e curvas mais bem distribuídas, feito em escultura ou pintura, ou ainda cuidar atentamente da nossa história, como as narrativa em literatura.

Construir a vida como uma obra de arte nos coloca em uma relação mais atenta e amorosa com a nossa existência e escolhas. Além de que entender do nosso processo, das dificuldades que temos, nos coloca atentos às dificuldades que os outros também têm. Atenção à nós e empatia com o próximo. Quem diria que um conceito tão bonito pudesse vir de Friedrich Nietzsche?


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Abençoados os ignorantes

Existe, na cultura popular, o ditado que diz ser, a ignorância, uma benção. Sempre achei um grande engodo, quase blasfêmia, um disparate propagar esse tipo de ideia. Imagino que tal conceito foi, certamente, criado por alguém muito esperto, que apresentou isso como uma verdade, mas com o escuso objetivo de manter-se no controle evitando o aumento de mentes questionadoras, que colocariam sua autoridade em risco.

Independente de quem e como essa ideia ganhou corpo e força, ela não resistiria tanto tempo no mundo se não existissem mentes que a acolhessem. Mentes preguiçosas ou covardes que preferem os cabrestos, os antolhos, que limitando o campo de visão e ação, deixariam a vida mais fácil, mais cômoda. É mais fácil ser guiado do que guiar dirão esses os partidários do saudoso carteiro Jaiminho, da Vila do Chaves, que vivia evitando a fadiga.

Do outro lado, temos Sócrates que, ao ser proclamado o homem mais sábio de toda a Grécia, concluiu que, se isso fosse a verdade, sua sabedoria só poderia vir da sua ignorância, respondendo ao título com um sonoro e sincero "Só sei que nada sei". E mais uma vez nos aparece a ideia da ignorância como algo bom.

Mas não podemos nos enganar, há aí uma armadilha conceitual entre as ignorâncias. Enquanto a ignorância de Sócrates vinha da humildade de, após muita reflexão e estudo, concluir nada saber por reconhecer-se mínimo frente ao infinito do conhecimento disponível no Universo; que cada nova resposta geraria uma nova pergunta, ad infinitum; a ignorância do homem comum vem da negação do conhecimento: por preguiça, fugindo do doloroso trabalho que é pensar; ou do orgulho, por achar que já sabe de tudo e nada mais precisa conhecer.

Essas duas ignorâncias são dois pontos opostos de um ciclo infinito que se inicia quando estamos humildemente ignorantes, como Sócrates, em busca de mais conhecimento, e atinge seu ápice quando dominamos o conhecimento. Entretanto, tendo em vista o infinito de coisas a conhecer que nos cerca, ao chegarmos ao ápice do ciclo, no pseudo-domínio do saber, é necessário perceber que há sempre muito mais a conhecer. Se não retomarmos a humildade e a percepção de que, apesar de tanto conhecimento já adquirido, existem muito mais coisas que desconhecemos do que coisas que conhecemos, estagnamo e, limitados, nos tornamos dogmáticos e arrogantes, brutos e interrompemos o processo de conhecer o universo, de evoluirmos, que deve ser continuo.

Então é verdade! A ignorância é, sim, uma benção! Quanto mais se sabe, menos se sabe, mais ignorantes nos tornamos. A ignorância pela preguiça ou medo de sofrimento, não traz paz alguma, apenas anestesia e, a longo prazo, inevitavelmente, trará as suas dores, multiplicadas, como uma ferida não tratada, que só vai aumentando e infeccionando mais e mais. É a ignorância pelo conhecimento a verdadeira ignorância abençoada do dito popular, é ela que nos faz humildes e nos dá a paz e a tranquilidade verdadeiras. 

Que bom, que benção é ser ignorante!

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Caro Data Vermibus


Vou deixar morrer, em mim, o amor
que por ti nasceu e hoje é triste.
Pois nem mesmo o encanto que em mim existe
tem a eternidade da tua fuga.
E ao peito calejado dar descanso
do constante flerte com o descaso.
Recostar o espírito no abraço manso
da solidão, e nunca mais no da saudade.
Assim, ao definhar-se por completo,
e desse amor não restar sequer o afeto,
me liberto da desventura que é te bem querer.
Pois, antes que irremediável e grave,
melhor do amor fazer cadáver
do que estar morto ao se viver.



Nota 1: A palavra "cadáver", segundo a etimologia popular, teria origem na inscrição latina Caro Data Vermibus ("carne dada aos vermes"), que supostamente seria inscrita nos túmulos. Na verdade não se encontrou até hoje nenhuma inscrição romana deste género. Os etimologistas defendem que a palavra deriva da raiz latina cado, que significa "caído". (Fonte: Wikipedia)

Nota 2: Leia também os meus comentários sobre este poema.