terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Rotações e Translações



Acordara revigorado naquela manhã, dia 02 de Janeiro. A ânsia de voltar ao trabalho depois daqueles dias de folga de virada de ano era enorme. Era um workaholic de carteirinha.

Seguindo o ritual que havia criado e evoluído nos últimos 2 anos, acordou cedinho para ir ao trabalho, tomou seu café com muito açucar e pouco leite, e comeu suas torradas com requeijão. Vestiu seu paletó agradecendo à Willis Carrier que em 1902 inventou o ar condicionado, possibilitando que os executivos tropicais fossem ‘européiamente’ elegantes e, depois de tudo em ordem, pegou sua pasta, entrou em seu carro do ano e foi para o escritório.

Entre conflitos de ego com superiores e subalternos, montanhas de procedimentos para averiguar, conseguia ainda jogar seu charme para as companheiras de trabalho. Por não ter uma vida social muito ativa, era durante o trabalho que ele tentava se afirmar como homem. Os colegas não acreditavam como ele conseguia, sem atrasar o cronograma do setor, cantar a estagiária e levar um café com pouco açúcar, mas com muitas outras intenções, para a supervisora do financeiro.

Utilizava a uma hora e meia de almoço que tinha (e que achava muito) para se inteirar da situação do Flamengo e das ultimas fofocas da política nacional. Também não perdia de ler as tirinhas sacanas da seção de quadrinhos.

Devidamente relaxado, voltava para sua montanha de afazeres e bate papo com o pessoal do setor de informática onde trabalhava. Isso duraria o restante do turno que se estendia até as 19h. Adorava fazer um serão.

De volta ao lar, ligava a televisão e, enquanto preparava sua lasanha congelada, prestava atenção nas ultimas falcatruas da novela. E não precisava de mais nada.

Era assim todos os dias, sem muitas variações. Novela terminada, veste o pijama e se prepara para deitar. Foi aí que o telefone tocou. Era o Roberto, seu irmão, ligando para desejar um feliz Ano Novo. Assustado foi olhar o calendário e outro ano havia passado. Era 31 de Dezembro.


28/12/2008

domingo, 28 de dezembro de 2014

Livro + Show : Estamos em Umuarama!

Depois de muitos meses, finalmente voltei a Umuarama. E com muita alegria farei um evento oficial de lançamento do meu livro aqui, terra onde a maioria dos poemas do livro nasceu. E pra deixar a festa mais imperdível, vamos reunir, após 5 anos, o Nevilton Trio Original (Nevilton + Lobão + Fernanditto), e tocaremos as músicas do disco que gravamos juntos, o "De Verdade". Espero todos lá.



Local: Tabeerna
Horário: à partir das 18h (show às 20h)
O livro estará à venda por R$15,00. (levem trocados pra ajudar)


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Uma Manhã


Acorda, abre os olhos. São dez horas da manhã. Instintivamente vem o desconforto de acordar só. Entretanto, agradece aos céus por não ter mais aquele emprego besta de intermináveis oito horas diárias bem sofridas, aguentando as ladainhas do seu chefe. Era aliviante respeitar seu relógio biológico, estava mais saudável do que nunca, uma “saúde de ferro”, como lhe disse o médico.

Sai da cama afim de tomar aquele banho matinal, para que possa ficar definitivamente “em pé”. Com o sono afugentado, veste-se com seu robe e vai até a cozinha de seu pequeno apartamento. Coloca a água na chaleira vermelha e a leva ao fogão. Enquanto a água ferve, separa o pó negro e cheiroso do café moído ainda ontem na feira do bairro e prepara para si um ovo mexido.

A água fervida, passando pelo pó, emana o irresistível cheiro do café que perfuma todo o ambiente. Alcança o patê de presunto na geladeira, passa num pão francês e junta o ovo mexido. “Isso sim que é um sanduíche” – pensa. O café está pronto, preto, sem açucar, como sempre. Degusta tudo lentamente e, a cada gole do café, sente seus neurônios mais despertos. “Bom dia vida!” – e saúda o cosmos.

Terminado o ritual do despertar, volta ao closet. Veste-se casualmente para sair de casa. Antes de sair, no caminho para a porta, retém-se na estante de livros. Para. Olha para o porta-retratos. Acolhe o em suas mãos e o traz para perto do rosto, beijando-o carinhosamente. Devolve-o. Sai de casa. Tranca a porta. E como em todos os dias dos últimos 3 meses, pensa, com esperança e melancolia, na pessoa com a qual, um dia, voltará a dividir o mesmo teto.

19/05/2008

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Livro : Incidente em Antares [1971, Erico Veríssimo]


As famílias Campolargo e Vacariano lutam pelo domínio da pequena cidade de Antares, no Rio Grande do Sul, desde que foi fundada no quase imemorial passado dos pampas. Mas a situação política e social do Brasil inspiraram a classe operária a se rebelar contra a Burguesia local e declarar uma greve geral.

Para o azar de sete moradores da cidade: Quitéria Campolargo, a matriarca da cidade; Barcelona, o sapateiro anarquista; Cícero Branco, o poderoso advogado; João da Paz, jovem pacifista que foi torturado; o bêbado Pudim de Cachaça; o pianista suicida Menandro Olinda e a prostituta Erotildes, todos falecidos no mesmo dia, os coveiros da cidade também estão em greve e se aproveitam dos mortos insepultos para pressionar ainda mais os “donos da cidade”.

Apesar do desconforto, tudo correria normalmente se os sete mortos não resolvessem se levantar de seus caixões, deixados no portão do cemitério, e voltar à cidade para exigir um enterro descente e o descanso eterno. Aproveitando-se da liberdade que a morte lhes deu, se vingam dos desafetos e usam o coreto da cidade para revelar os podres dos cidadãos de Antares, de fatos políticos a aventuras sexuais e traições.

Esta história aconteceu em 1963, na fictícia cidade e Antares, local escolhido por Erico Veríssimo, para ser o cenário de seu livro “Incidente em Antares”. O livro já foi Mini-Série da Rede Globo em 1994, série que foi compilada num longa metragem que você pode assistir no final dessa resenha.

Erico Lopes Veríssimo, considerado um dos maiores romancistas do país, é pai do Luis Fernando Veríssimo, também famoso escritor brasileiro. Nascido em Cruz Alta, interior do Rio Grande do Sul, em 17 de dezembro de 1905, teve muitos empregos diferentes durante a juventude, até que em 1930 começa a publicar seus textos. Daí pra frente se dedica cada vez mais à literatura. De livros infantis à traduções de clássicos da literatura para o português; passando por coletâneas de contos seus, até ensinar literatura brasileira em Universidades Norte-Americanas, Erico sempre se mostrou apaixonado por seu trabalho, paixão que reflete diretamente na qualidade de seus textos e no capricho com o qual são feitos.



O Magnânimo Erico enquanto criava.

Em 1949 publica o primeiro volume da trilogia “O Tempo e o Vento”, um marco em sua carreira, considerado sua obra-prima. É uma trilogia com mais de 2.200 páginas, que consumiu quinze anos de trabalho. Esse ‘Senhor dos Anéis dos pampas’ conta a história do estado do Rio Grande do Sul de 1680 a 1945 (fim do Estado Novo), através da saga das famílias Terra e Cambará. É considerada a obra mais importante sobre o estado gaúcho e é dividida em três tomos: O Continente (1949), O Retrato (1951) e O Arquipélago (1962). Continuou produzindo muito e ganhando muitos prêmios nacionais e internacionais, mas em 28 de novembro de 1975, o escritor falece subitamente, deixando inacabada a segunda parte do segundo volume de suas memórias, além de esboços de um romance que se chamaria “A Hora do Sétimo Anjo”.

Incidente em Antares, publicado em 1971, foi o ultimo romance de Erico. Influenciado pelo ambiente criado pela ditadura que marcava o Brasil de Vargas, propõe uma crítica ao regime totalitário que valoriza a instituição em detrimento do homem. É sem dúvida um romance político, que narra a disputa pelo poder e critica a sociedade e seus conceitos de honra e exploração econômica.



Capa de uma edição antiga do Incidente em Antares.
Inclusive, foi essa que eu li.

O livro é dividido em duas partes. A primeira conta a história da fictícia cidade de Antares, desde os seus primeiros registros, quando ainda era apenas uma propriedade rural na margem esquerda do Rio Uruguai. A grande sacada desta parte do livro é a forma que o autor casa perfeitamente a evolução do “Povinho da Caveira” - que se tornará Antares - com a história real do Brasil e dos pampas, incluindo a presença de grandes autoridades políticas do pais na cidade. Aspectos geográficos, sócio-políticos, costumes e curiosidades, tudo está lá, o autor consegue trazer a fictícia Antares para a realidade de uma forma mágica.

A segunda  – e menor – parte do livro se chama “O Incidente” e ocupa, interessantemente, só o último terço do volume. É ela nela que está história dos mortos-vivos, iniciada no fatídico dia 13 de dezembro de 1963, sobre a qual comentei no começo desta resenha.

Sem dúvida alguma, é um livro delicioso, tradição da família Veríssimo. As duas partes são escrita com esmero e cuidado para que o leitor se mantenha atento, interessado e envolvido na narrativa. Para quem quiser algo mais, veja esse resumão do livro, mas eu recomendo firmemente a leitura da íntegra, é um prazer que você não pode negar a si mesmo.

E pra quem é cinéfilo, deixo aqui o longa-metragem feito à partir da mini-série Global:



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Covarde

Curtia o barulho da rua. Observava interessado o ir e vir caótico dos passantes, cada um em seu pequeno mundo particular. O chão, ainda molhado da rápida chuva de verão que a pouco havia caído, evaporava num hálito úmido e quente que envolvia minhas canelas. E, definitivamente, adorava aquele cheiro de rua rarefeita. Era ótimo participar, mesmo que só observando, daquela agitação toda.

Ao mesmo tempo em que me maravilhava, mirava aquele sujeito magrelo, sujo e descabelado, que pelo jeito não teve onde abrigar-se na hora da chuva. O cheiro incômodo de cachorro molhado me golpeou as narinas. 

Não era só o cheiro, era mesmo um cachorro molhado. Um igual. Igual? Nesse momento senti um golpe no pescoço, puxavam minha coleira. A voz de comando de minha jovem dona - “Vem, Tobias!” - me resgatou da divagação. Içado ao colo e embarcado no carro, só me restava olhar pela janela do veículo que rumava para casa. E dei graças a isso. 

No caminho, enquanto o vento me refrescava a fuça, agradeci pelos breves momentos encoleirados de liberdade que tinha. 

[originalmente em Culturanja, ano 01, #1 - Março 2008]

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Álbum : The Sot Bulletin [1999, The Flaming Lips]


Steven Drozd, Wayne Coyne e Michael Ivins.
Juntos eles são os Lábios Flamejantes!

Medo e superação, estes são os temas centrais de “The Soft Bulletin”, um álbum com mensagens densas e sonoridade rica, porém leve e aconchegante. Essa grande experiência sonora foi lançada em 1999 pelo Flamig Lips.

A banda iniciou suas atividades na cidade norte-americana de Oklahoma em 1983. Gravou diversos discos, participou de trilhas sonoras de filmes como Batman Forever, Austin Powers, Como Se Fosse a Primeira Vez e Spider-Man 3. Hoje, formada por Wayne Coyne (vocais, guitarra, teclados e theremin), Michael Ivins (baixo, guitarra, teclado e vocais) e Steven Drozd (guitarra, bateria, percussão, teclados e vocais) conta, nas apresentações ao vivo, com a ajuda de Kliph Scurlock na bateria e percussão. Por serem uma banda de multi-instrumentistas, a grande diversão do Flamming Lips é pilotar o estúdio, criando discos ousados, com uma sonoridade que se renova a cada álbum, muitas vezes ousados, como o “Zaireeka” de 1997, que consistia em quatro CD’s a serem tocados simultaneamente.

Após a aparentemente insuperável loucura do “Zaireeka”, Wayne Coyne, o frontman e principal compositor da banda, durante uma caminhada no silêncio da noite, resolve criar um álbum mais palatável, porém, sem perder a identitade sonora e psicológicamente complexa tão característica dos Flaming Lips. Nasce então esse “Dark Side of The Moon” dos anos 90. E a banda se supera novamente.

Todo o álbum gira em torno de experimentações sonoras, a marca registrada da banda, porém, no “The Soft Bulletin” elas estão mais contidas, pois a idéia agora é a de como fazer o sentimento da canção atingir o ouvinte sem que a mensagem se perca dentro da profusão de sons, muitas vezes caóticos. E conseguiram, com belas canções aliadas ao ótimo trabalho de produção e timbragem dos instrumentos, fizeram deste álbum um marco na carreira dos “Lips”. Há, inclusive, como é praxe para a banda, várias versões para este álbum, até mesmo uma mixagem em 5.1, que deve ser uma viagem linda.


Capa do Soft Bulletin.

A animada “The Race For The Prize”, magnífica faixa de abertura, conta a história de dois cientistas bastante dedicados ao trabalho de encontrar a cura para uma doença, podendo assim salvar o mundo. Mas até que ponto vale tanto esforço? Será que conseguirão manter seus afazeres da vida cotidiana enfrentando tamanha pressão e expectativas, correndo até mesmo risco de vida? Afinal de contas, como diz a canção, “eles são apenas humanos, com esposa e filhos”.

Nas demais faixas do álbum, os temas variam de outras epopéias científicas (A Spoonful Wheighs A Ton); auto-conhecimento (A Spark That Bleed); e como sua vida influencia a de outras pessoas (The Spiderbite Song). Quando o assunto são as reações humanas ao amor (Buggin’) chegam a questionar a hipótese – obviamente não comprovada – de que a reação química cerebral que nos permite apaixonar é a mesma que ocasionou o Big Bang (What’s The Light).

E as observações sobre a experiência humana não para por aí: a rapidez na qual o tempo passa e transforma o presente em passado, a maravilha de observar essa vida tão volátil e entender suas sutilezas (Suddenly Everything Has Changed). Seria a luta pela sanidade a batalha de nossas vidas? (The Gash). O medo, a fuga e a necessidade da morte e do amor, aparecem vestidos numa atmosfera tranqüila e colorida na indefectível "Feeling Yourself Disintegrate", possivelmente é assim que estes sentimentos se mostrariam para nós ao atingimos a plenitude na vida e começarmos a rumar para o inevitável fim. Do álbum e da vida.

A oitava faixa, “Waiting’ for the Superman (Is it gettin’ heavy???)”, merece destaque. É a melhor mensagem de “agüente as pontas” que eu já ouvi. O timbre encorpado da bateria, que já impressiona durante todo o álbum, ganha um bumbo profundo, que vibra surdo como um coração. Aliando essa bateria com um vocal melancólico, com um arranjo de cordas flutuante, com um piano triste e alguns sinos, cria-se o ambiente perfeito para o apelo do refrão:

“Tell everybody waitin' for Superman
 That they should try to hold on the best they can
 He hasn't dropped them, forgot them, or anything
 It's just too heavy for Superman to lift.”

Portanto, cada pessoa que cuide de si da melhor forma possível, pois o “Superman”, que sempre nos tirou dos apuros, está um tanto mais ocupado hoje em dia. Vamos dar uma força ao moço?

Depois de tantos estímulos e mensagens, a instrumental "Sleeping On The Roof" (12ª faixa) é o momento de reflexão solitária que o álbum pede. Os ruídos noturnos e a música que os acompanha, remetem à idéia do título: observar a noite, do telhado de casa, sozinho com seus fantasmas e conclusões. Se você conseguir passar por este momento de auto-análise e manter sua sanidade intacta, terá se tornado uma pessoa melhor.

Já que tudo é cíclico na vida e a jornada do auto-conhecimento é eterna, as duas últimas faixas deste trabalho são remixes de “The Race For The Price” e “Waitin’ for a Superman”. Que tal, após terminar a jornada, olhar o mesmo mundo com outros olhos? E, quem sabe, recomeçar essa "corrida pelo prêmio", esse contínuo e valioso exercício de evoluir.

Aproveitem o embalo e vejam o belo clipe de “Waintin’ for a Superman”.




Tracklist
1. race for the prize
2. spoonful weighs a ton
3. spark that bled
4. slow motion
5. spiderbite song
6. buggin
7. what is the light
8. observer
9. waitin for a superman
10. suddenly everything has changed
11. the gash
12. feeling yourself disintegrate
13. sleeping on the roof
14. race for the prize [remix]
15. waiting for a superman [mokran remix]




Originalmente publicado no Culturanja de 25 de janeiro de 2008.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Livro : Moby Dick [1851, Herman Melville]

ou "As Aventuras de Herman, o Marinheiro".



Herman já tinha sido bancário, professor e fazendeiro, tudo para ajudar sua mãe e sete irmãos a não passarem muito aperto depois que o pai morreu. Um dia resolve ser marinheiro e, à bordo vários navios, vive muitas aventuras pelo oceano pacífico, participa de motins e chega até mesmo a viver alguns meses com a tribo de canibais Typee, das Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. (um pouco mais sobre as Ilhas Marquesas)

Em 1844 abandona a vida de homem do mar. Casa-se, em 1847, com Elizabeth e aproveita a bagagem cheia de histórias para escrever alguns livros, que foram grandes sucessos na segunda metade dos anos de 1840, o que garantiu a Herman e sua família algum status e conforto.


As Ilhas Marquesas. Aí até eu, heim Herman!

Apesar de parecer, o Herman de quem falamos não é um personagem fictício, ele é o escritor norte-americano Herman Melville, que em 1851, escreveu Moby Dick, ou A Baleia. O livro, publicado em três fascículos, foi um fracasso na época e levou nosso amigo Herman ao ostracismo. Quando ele faleceu, em 28 de setembro de 1891, há exatos 117 anos atrás, o obituário do New York Times registrava o nome de Henry Melville e ninguém se importou, de tão apagada estava sua fama.

Entretanto, o maior fracasso de critica e público de Herman Melville é o livro pelo qual ele é mais lembrado hoje em dia. O romance Moby Dick conta a história do jovem Ismael que, decidido a trabalhar na marinha mercante embarca no Pequod, navio baleeiro do capitão Ahab e o desenrolar da história transforma o livro numa obra de arte, que eu, sem titubear, coloco entre os 10 melhores livros da minha lista pessoal.

Talvez as divagações de Ismael (personagem narrador do livro), as significações metafóricas de cada personagem e o viés psicológico que permeia todo o texto, tenham deixado o pessoal de 1851 – ainda não apresentado à Psicanálise, pois Freud nasceria apenas em 1856 – bastante entediado e por fora do assunto. O desinteresse causado pela distância entre a obra e o público pode explicar o grande fracasso, naquela época, de um livro tão interessante e tão bem escrito que é, nos dias de hoje, um marco na literatura ocidental.


Arte para a capa e contra-capa da primeira edição de Moby Dick.

A riqueza de detalhes sobre barcos, métodos de pesca de baleias e curiosidades marítimas em geral, escrito com total domínio de causa – já que, como dito antes, Melville passou anos de sua vida trabalhando na marinha mercante dos Estados Unidos –, somada com a atemporariedade do tema, cria uma relação de credibilidade entre o autor e o leitor, que se torna sedento por cada nova página de Moby Dick.

A vontade doente de vingança do Capitão Ahab; a tripulação alucinada que entra na onda do chefe, colocando em risco a própria vida; as opiniões de Ismael, que dentre todos é o mais bem nutrido de razão, tudo isso se apodera do leitor e o leva junto à caça daquele feroz diabo branco, que pode ser uma simples baleia albina, ou o símbolo das mais variadas obsessões humanas. E cabe ao leitor, munido da sua própria história de vida, decidir quem é  quem.





Originalmente publicado no Culturanja de 3 de outubro de 2008.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Publicando um livro : o caminho das pedras


Publiquei o meu primeiro livro no início do mês de outubro. Fiz de maneira independente e aproveitei para aprender o máximo possível sobre todas as etapas do processo que dá origem a este objeto pelo qual sou apaixonado: o livro. As etapas não são muitas e nem muito difíceis, mas demandam atenção e carinho, para que o livro, ao final, não seja só um compêndio de textos, mas também seja um objeto bonito e agradável de se manusear, otimizando a experiência do leitor.

Publicar um livro de forma independente não é novidade. Em 1918, Monteiro Lobato financiou do próprio bolso e publicou seu primeiro livro "Sacy Pererê - O resultado de um inquérito"; em 1930, Carlos Drummond Andrade segue a mesma técnica e publica o "Alguma Poesia"; até mesmo o ícone do rock, o americano Jim Morrison, em 1969 'dá a luz' aos dois volumes de poesia "The Lords / Notes on Vision" e "The New Creatures", de forma independente.

Havendo esse respaldo histórico todo, não tive motivos para ter medo e segui o meu projeto. Inclusive, gostei tanto da experiência e já estou iniciando os preparativos para uma próxima publicação. Em tempo, quero lembrar que publicar um livro de forma independente nem sempre significa publicá-lo sozinho. Considere uma equipe, mesmo que mínima, para opinar e, talvez, até mesmo colocar a mão na massa, diagramando, ilustrando, revisando, editando... Enfim, durante o seu processo, você sentirá onde precisará de ajuda. E não tenha dúvidas de que precisará.

Durante minha saga, que da seleção final dos poemas até a aprovação final da arte para a gráfica durou um ano completo, perguntei pra muitos amigos e pesquisei em vários tutoriais sobre como dar cada passo e, da mesma forma, depois do lançamento, muitos amigos vieram me perguntar sobre como eu fiz. Portanto, nada mais justo do que fazer esse texto, no qual explico passo a passo, de forma rápida (juro que tentei ser objetivo) o caminho das pedras para se publicar um livro.

Boa sorte a todos.


1. O Texto
Antes de tudo é necessário ter um texto finalizado e revisado. É importantíssimo que esse texto esteja revisado, e para tanto, sugiro que, além de você e um revisor oficial (alguém que realmente entenda do português), escolha uns outros dois ou três amigos que gostem de ler para opinar sobre o texto e também ajudar na revisão.

Nunca confie apenas nos seus olhos de águia (no meu caso então, de águia miope, pior ainda!), pois durante as centenas de vezes que você já releu o seu texto enquanto o estava escrevendo, o costume, o cansaço, a interferência do que está na sua cabeça sobre o que realmente está no papel, pode facilitar para que erros simples de português, pontuação, concordância, etc passem sem que você perceba. Além do que, uma outra pessoa lendo o texto, pode indicar partes dele que não estão transmitindo a mensagem da forma que você imaginou. Não seja preciosista, mude o que tiver que ser mudado, melhore o seu texto para que o leitor o aproveite melhor.


2. Registro na Biblioteca Nacional
Com o seu texto devidamente revisado, é só seguir as instruções que estão bem detalhadas no site da Biblioteca Nacional e registrá-lo como seu. Resumidamente são: pagar a Guia de Recolhimento da União (GRU); imprimir uma cópia do texto com todas as páginas numeradas, rubricadas pelo autor e com índice; providenciar fotocópia dos seus documentos pessoais e comprovante de endereço; preencher o formulário de registro de obra e enviar tudo isso para o Escritório da Biblioteca Nacional mais próximo de você. E lembre-se, mantenha sempre uma outra cópia dos seu texto com você, pois a Biblioteca Nacional retém e arquiva permanentemente a cópia que você enviou para eles. A confirmação de registro demora até 90 dias pra chegar, por correio, até você. Então, não se desespere.

Esse passo, apesar de não ser obrigatório, é altamente recomendado. Pois, mesmo sendo o registro do texto na Biblioteca Nacional mero indício de prova de propriedade intelectual, ou seja, pode ser questionada à qualquer momento, ele é um argumento a mais, uma prova da sua autoria, com fé pública, a ser usada em algum processo de plágio ou coisas do gênero.


3. Capa e Diagramação
Agora é a hora de deixar o seu livro bonito, criar uma capa bonita, criativa, convidativa e deixar o texto com uma cara boa, gostoso de se ler. Contrate alguém de bom gosto para diagramá-lo (no meu caso foi a Letícia Junqueira, designer e escritora), troque uma idéia sobre o conceito estético que você procura, sobre a sensação que você quer passar para o leitor. Caso você entenda do assunto, vai com fé e faça você mesmo, entretanto, recomendo ter sempre um time de opinadores, para sugerir algumas alterações e melhorias que você, fechado no seu próprio universo, certamente não iria perceber.

Sugiro a diagramção para os formatos digitais como e-Books: Kindle, Kobo, LEV, iBooks Apple Store, ou ainda algum mais genérico, como o E-pub, e até mesmo fazer uma versão em PDF, aproveitando a diagramação para o livro impresso. Para cada e-reader existe um estilo diferente de diagramação e publicação, com tutoriais específicos, mas é só visitar os links que coloquei ali em cima, se informar e mãos à obra! Quanto mais formatos, mais alcance terá a sua obra publicada.

Essa parte, provavelmente vai ser a mais demorada e trabalhosa. Não desanime.


4. ISBN e Prefíxo Editorial
O ISBN é um número mundial de identificação de livros. Ele é aquele código de barras que fica na contracapa e vai ajudar na hora de você colocá-lo à venda em qualquer livraria do mundo. Para pedir o ISBN você precisa de duas coisas: ter um prefixo editorial e ter a folha de rosto do livro.

O prefixo editorial é um número que identifica você (pessoa física ou jurídica) como um editor de livros, e é um dos custos mais altos dessa parte burocrática, mas você só o faz uma vez. Depois é só usá-lo para pedir o ISBN para suas outras obras, vinculando todas elas ao seu prefixo editorial.

Acessando site do ISBN, você poderá tirar mais dúvidas. Ao cadastrar o seu prefixo editorial, necessariamente terá que pedir um ISBN para o seu livro, gerar a GRU e pagá-la, senão o atendimento não será válido. Confira a tabela de preços do ISBN. Todo o atendimento é feito através de um formulário online, sem a necessidade de impressão ou envio de quaisquer documentos pelo correio. Você também pode escolher receber o ISBN no formato digital, em fotolito impresso ou nos dois. Aí vai depender do que o seu diagramador preferir.


5. Ficha Catalográfica
A ficha catalográfica é um descritivo que contém os dados bibliográficos da obra, que auxilia a sua identificação dentro de um acervo ou biblioteca. Eu (e pelo jeito muita gente) sempre achei que ela viria junto com o código de barras do ISBN. Mas, não, ela não vêm. A ficha catalográfica é feito por um bibliotecário devidamente cadastrado no CRB (Conselho Regional de Biblioteconomia) ou por alguma associação, como a Câmara Brasileira do Livro, que cobra um preço meio salgado pra fazer o serviço, por isso contratei a Janaína Ramos, bibliotecária, que confeccionou a minha ficha catalográfica por um preço muito mais justo.

O Bibliotecário irá pedir todos os dados técnicos da obra: nome da editora, nome do autor, local de publicação, numeração de páginas, dimensões físicas, primeiro capítulo, sumário, ISBN e etc. É por isso que é melhor pedir a ficha catalográfica quando a diagramação já estiver na reta final, para que se tenha a numeração correta das páginas, por exemplo.


6. Fechamento da Diagramação e Revisão Final
Depois dessa bela maratona burocrática, alguns bons merréis investidos, você está bem perto de publicar o seu livro. Agora que todos os elementos já estão em suas mãos, é só terminar a diagramação, dar a última revisão ortográfica (que nunca é demais), inserir uma página de créditos com o nome de todos que trabalharam nesta edição do livro, incluir a ficha catalográfica nessa página de créditos e aprovar a versão final da diagramação.


7. Impressão
Com a versão final da diagramação em mãos, você pode pedir orçamentos para diversas gráficas, negociando o tipo de papel pro miolo e pra capa e um monte de formas de impressão, encadernação e acabamento. Cada elemento pode baratear ou encarecer o livro, então tente equalizar as idéias do diagramador com as suas, peça dicas para o pessoal da gráfica e chegue num consenso sobre o melhor custo/benefício para você.


8. Lançamento, Divulgação e Vendas.
A emoção de ver os seus livros impressos, na sua frente, é indescritível. Aí você percebe que todo o esforço valeu muito a pena. Então agora que você tem a versão impressa e todas as versões digitais devidamente diagramadas e no gatilho, é hora de pensar num evento de lançamento bem bacana, convidando os amigos, jornalistas, agitadores culturais, publico em geral e demais pessoas interessadas em literatura da sua rede de conhecidos.

Faça um site, um blog ou uma página no facebook, ou todos eles. Monte um press release do seu livro, com texto explicativo, foto e alguma outra informação necessária e envie para a imprensa. Pense sobre onde ele estará a venda, se é no seu blog, na livraria, na loja de discos ou na padaria de um amigo seu ou em todos esses lugares ao mesmo tempo. Enfim, pense num jeito de espalhar a novidade para o maior número de pessoas possíveis e num jeito de receber os pagamentos e entregar o produto para os seus recém conquistados fãs.


9. Depósito Legal
Esse é o ultimo passo, mas não menos importante. É quando você faz com que seu livro exista oficialmente na Literatura Brasileira. Por lei, todos os que publicam um livro devem enviar um exemplar para a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, para que ele seja arquivado entre todas as obras publicadas no Brasil, ajudando, assim, a registrar a produção literária do nosso País. O não envio dessa cópia pode gerar uma multa de 10 vezes o valor de mercado da obra.

Você encontra as instruções para o Depósito Legal no site da Biblioteca Nacional. Você pode enviar, o exemplar por correio, direto ao Rio de Janeiro, ou ao Escritório da Biblioteca Nacional mais próximo de você.


10. Siga em frente!
Pronto! Com seu livro lançado e todo o sistema de atendimento e divulgação funcionando, é hora de preparar o próximo texto e começar tudo de novo. Afinal, a natureza e vida já provaram que as maiores e melhores colheitas são pra quem nunca para de plantar.

 Bem vindo à vida de escritor profissional!

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Livro : O Sacy Pererê [1918, Monteiro Lobato]



Saci-Pererê e Monteiro Lobato - o resultado de um encontro

A preocupação com a preservação da cultura e folclore nacionais não é nova. Em 1917, o grande Monteiro Lobato, criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, publicou uma pesquisa no Estadinho (apelido carinhoso da edição vespertina d’O Estado de São Paulo) e pediu para seus leitores lhe enviarem relatos de experiências com o Saci-Pererê. Para tanto era só enviar uma carta com o seguinte questionário respondido: Como o leitor havia descoberto o mito? Como é a crença nele nos dias atuais? E quais experiências passadas pessoalmente ou ouvidas o leitor poderia contar?

O resultado desta enquête foi o livro Saci-Pererê - O resultado de um inquérito, publicado no ano seguinte (1918), com quase 300 páginas cheias de histórias do endiabrado 'muleque perereca'. Alguns o descrevem como um demoniozinho feioso, alguns como um moleque sacana e perneta. Com gorro, com ou sem rabo, não importa, o que vale mesmo são as deliciosas histórias do tinhosinho sendo trazidas do esquecimento para a realidade. Este foi o primeiro livro de Monteiro Lobato, teve a tiragem inicial de dois mil exemplares, bancados pelo próprio autor, que assina o livro sob o pseudônimo de Um Demonólogo Amador. Para ajudar nas despesas o escritor colocou anúncios especialmente desenhados com o tema Saci-Pererê pelo cartunista João Paulo Lemmo Lemmi, também chamado de Voltolino.



Capa da edição original de 1918, a mesma da edição fac-similar de 1998. 
Em ambas o grande atrativo é a 'graphia' no português da época.


Primeira Guerra Mundial estava em seu ápice em 1918, e Lobato usa essa obra para questionar o conceito de civilização nos moldes franceses que as elites brasileiras insistiam em reproduzir. Ele demonstrava a necessidade de se aprofundar os estudos sobre as lendas, crendices e costumes brasileiros, para que pudéssemos conhecer mais sobre nossa cultura.

De conteúdo simples de se ler, com um tema apaixonante e uma linguagem que varia conforme o grau de instrução de quem escreve cada história, o livro é um prato cheio para quem procura bons momentos de conhecimento e prazer. Inclusive existem lindíssimas passagens escritas com a linguagem do matuto iletrado do interior, que são nada menos do que tesouros da nossa língua. Ainda mais se, assim como eu, você também ouvia essas histórias quando pequeno.

Inclusive esta obra, lançada antes do famoso Urupês, não constava na bibliografia oficial de Monteiro Lobato, que ironizou o fato de sua estréia literária ocorrer por meio de uma obra não-assinada, pois ele só organizou material de terceiros. Até que em 1998, a Fundação Banco do Brasil e a Odebrecht publicaram uma edição fac-similar, ou seja, idêntica à original, embelezada com a grafia do português da época, torna tudo muito mais saboroso. Foi uma edição de cinco mil exemplares para serem distribuídas à bibliotecas e está, infelizmente, fora do comércio há anos. Mas não fique triste, pois a Editora Globo, no início de 2008, publicou uma edição revisada e atualizada desta jóia do folclore nacional. Já com o português atualizado, tirando aquele charme extra e surpresas da leitura, mas o conteúdo está todo lá, sempre interessante. De qualquer forma, independente de qual versão você conseguir, não perca a chance e agarre o seu.



Capa da edicão de 2008, pela Editora Globo.





Ps: Leia aqui um fragmento do livro.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Saudades Sinceras

Estava em minha sala, no Consulado Brasileiro em Bruxelas, quando recebi, pelo telefone, a notícia de sua morte. Tranquei a porta, sentei-me ao sofá e chorei por alguns minutos. Parei quando fui interrompido pela copeira que me trazia o habitual café das 16:15. Assim que ela saiu, só me restou uma coisa a fazer. Uma carta. O dia estava lindo lá fora, céu azul e as primeiras flores da primavera mostravam suas lindas e renovadas cores. Transcrevi a carta neste diário.

"Bruxelas, um dia qualquer, um ano qualquer.

Espero que você tenha morrido bem. Uma morte decente, num lugar decente, em companhia decente. Que estivesse envolvida no carinho de uma família amorosa, que lhe desse orgulho e amparo. Luxo é supérfluo, mas o havendo, melhor ainda! Um lugar bonito, companhias bonitas, um leito belo a deslumbrar-lhe os olhos nas ultimas imagens que eles captaram.

Que seus últimos momentos de humanidade tenham sido repletos de satisfação, de boas recordações, da sensação de dever cumprido e não de uma amargura muda e dolorosa de ter sido uma partícula indiferente ao mundo, de não ter aprendido nem ensinado, de não ter méritos nem desabonos, de não ter pecado (nem que tenha sido um pouquinho só), enfim, de não ter usado e abusado da vida que estava, quisesse você ou não, totalmente em suas mãos.

Lembro-me que você tinha planos, o que será que aconteceu com eles? A casa bonita, os filhos inteligentes, o casamento perfeito, o carro confortável, as viagens, os lugares a conhecer, os amigos fieis, as festas da “society” e os mimos todos que a vida nos oferece e que enfeitam nossa trama. Será que se realizaram conforme seu gosto? Todos? A maioria deles? Ou será que foram frustrados pela sina maligna da desilusão que persegue os sonhadores? Espero que não, inclusive, gostaria de tê-los visto realizados... assim como você, oxalá, os viu. Me emociona lembrar que tivemos planos em comum, que vivemos juntos um bom tempo, sonhamos juntos, choramos juntos, nos amamos e nos odiamos em profundidade. Foi bonito, e uma honra, compartilhar um pedaço da minha história com você.

Quando se vive com alguém por um longo ou curto período de tempo, sem saber transformamos fatos, que poderiam ter sido mesquinhamente lacrados em uma vida só, em generosos momentos únicos de duas vidas. Pois é, as lembranças não eram só suas ou só minhas, eram nossas. Interessante e deveras triste, é pensar que agora são apenas minhas. É uma pena não termos convivido por mais tempo, mas não sei se podemos ter o desplante de nos arrependermos disso. São escolhas e a vida é escolher, não tenha dúvida.

Sabe o que me entristece um pouco? A última lembrança que tenho de você. Aquela foi a última vez que nos encontramos e conversamos pessoalmente. Poderíamos ter aproveitado melhor, não acha? Mas como já disse, a vida é escolha. Lembro-me muito bem. Afinal, como poderia me esquecer da postura arrogante que você sustentava naquele dia, mesmo que mascarada pela anormal beleza e senso de humor, sorriso meigo e o visual impecavelmente cuidado nas minúcias, como sempre. Pena mesmo que a arrogância estava lá. Tomara que o tempo e a tão imperfeita memória humana cuidem disso, e certamente irão.

Mas o que dizer pra quem já se foi? O que dizer de quem já se foi? Nessas horas não nos resta muito, a não ser uma oração sincera e essa tentativa de auto-consolo que é imaginar uma existência bonita e torcer para que tenha sido verdade. Enfim, só queria lhe demonstrar o apreço que tenho por você, mesmo depois de tanto tempo em que estivemos ausentes, distantes um do outro. É o tipo de afeição que não se apaga, que não tem preço. É o carinho mais sincero que permanece.

Pedi para que lhe enviassem uma linda coroa de flores, colorida e alegre, como você era. Esta carta, assim que terminar de escrevê-la, queimarei. Que ela seja nossa última coisa em comum, nosso ultimo momento compartilhado, em homenagem a tudo o que foi e ainda é só nosso.

Até um dia.
Saudades sinceras."



texto originalmente publicado 30/10/2006
revisado para esta publicação.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A Travessa dos Prazeres


foto por João Santos


Enquanto caminhava docemente pelas íngremes e estreitas ruas do centro histórico, Agnes apreciava atentamente cada detalhe ao seu redor. Adorava ver os novos rostos das pessoas que passavam por aquele caminho que ela fazia diariamente, e era interessante notar que a cada novo dia novas coisas se colocavam diante seus olhos, como se nunca tivessem estado lá, mas eram tão velhas quanto o cenário.

Por três vezes durante a semana, a menina palmilhava o percurso, por vielas e escadarias, ruas de paralelepípedos, algumas estreitas outras um pouco maiores, cercadas pelos casarões. Ia subindo pelo caminho até que aquela pequena rua se transformava num largo majestoso, com um chafariz no centro, era o mercado dos ambulantes, a melhor parte da viagem. Sentia os aromas sutis das ervas e flores nas bancas; das pessoas perfumadas ou não; a gritaria na competição pelo freguês e todo aquele emaranhado de sensações caoticamente absorvidas pelos seus cinco sentidos de apenas nove anos de existência. Morava na vizinhança, e sua mãe não via problema em deixá-la ir sozinha até o prédio da Companhia Municipal de Ballet, onde praticava a dança.

Num destes dias, pelo canto dos olhos, Agnes reparou que alguma coisa em meio a todas aquelas cores se movimentava ao seu compasso, porém envolto nas sombras dos becos e vielas à sua direita. A sensação de ser protagonista de uma cena, criada nas retinas de outra pessoa, fez a menina inquietar-se. Com os olhos, e sutilmente com a cabeça – para não chamar atenção – vasculhava os arredores até onde sua visão alcançava, até que depois de alguns minutos pode encarar o seu observador, uma visão estranha.

Esguio, com uma cartola marron escura que o fazia ficar ainda maior. Não via detalles de seu rosto, apenas um bigode fino e enrolado na ponta, como aquele do Dick Vigarista dos desenhos animados. Vestia um casaco que ia até os joelhos, azul escuro, quase violeta, com botões dourados e uma calça de um marron indefinível. Mas o que interessou a menina foram as dezenas de balões coloridos que o moço portava. Ele a chamou com os dedos e abriu um sorriso bastante convidativo.

Agnes rumou em direção ao desconhecido, ignorando o que sua mãe sempre lhe dissera sobre esses tais desconhecidos. Foi se aproximando e pôde perceber um brilho, que mais parecia dois palitos de fósforo, nos olhos negros da figura. Eram, por incrível que pareça, encantadores.

- Olá, linda garotinha! Aceita um balão bem bonito? – disse o moço.
- Oi, moço, quero sim! Quero aquele amarelo! Como é seu nome, moço?
- Ah sim, o amarelo! Voilá, aqui está, e leve mais esse lilás pra acompanhar.
- Muito obrigada, mas... quem é você? Porque essa roupa diferente? Você não sente calor? Você não...
- Ora, quantas perguntas, garotinha... uma por vez, por favor, senão fica impossível! – disse, gargalhando, o figura - Vou lhe dizer, primeiro, o meu nome.

O sujeito se abaixou e cochichou seu nome ao ouvido da jovenzinha. Assim que terminou, o rosto infantil e cheio de vida se transformou numa expressão atônita, os olhos, antes curiosos, sequer se moviam. Os balões, soltaram-se de suas mãozinhas e flutuaram ao infinito do céu, especialmente azul naquele dia de primavera.

- Agora é só me acompanhar, pequena Agnes. – Sentenciou sombriamente o sujeito.

Segurou na mão da menina, virou-se para dentro da viela e pôs-se a andar, levando a garotinha junto. Alguns passos depois os dois desapareceram nas sombras, como se jamais tivessem existido. Daquele dia em diante a ausência de Agnes foi dolorosamente sentida e jamais curada.

Fato interessante é que, depois do sobrenatural ocorrido, todos os anos, no mesmo dia e hora, pode se ouvir por alguns segundos, ecoando na Travessa dos Prazeres, os passos de uma cabra.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Receita de Empanada



Empanadas Gosky
por Edward Lear

Pegue um porco de 3 ou 4 anos de idade e o amarre pelas patas traseiras à um poste. Coloque 3 quilos de uvas passas, 1 de açúcar, 2 punhados de ervilhas, 18 castanhas assadas, uma vela, e 6 baldes de nabo, à uma distância na qual ele possa alcançar. Caso ele coma tudo, providencie mais, constantemente.

Então, junte um pouco de nata, algumas fatias de queijo Cheshire, 4 cadernos de papel ofício, e um saco de alfinetes pretos. Transforme tudo numa massa e espalhe para secar num lençol limpo de linho marrom.

Quando a massa estiver perfeitamente seca, mas não antes disso, comece a bater violentamente no porco com um cabo de vassoura grande. Se ele guinchar, bata nele outra vez.

Olhe a massa e bata no porco alternadamente por alguns dias, verificando se, no final deste período, ambos estão se transformando em Empadas Gosky. Caso não estejam, nunca irão; e, nesse caso, solte o porco, jogue a massa fora, e considere o processo todo terminado.

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A receita acima é citada no texto "Do Conto Breve e Seus Arredores", do argentino Julio Cortazar, um dos mestre do Conto Fantástico Sulamericano. De acordo com ele, essa receita culinária exemplifica o método que a maioria dos escritores de contos modernos usa para criar seus textos, que são rasos, desinteressantes e de baixa qualidade literária. Expandindo perigosa e inconseqüentemente a mensagem do mestre, pode se dizer que este 'método sem método' é usado, não só por escritores, mas pela maioria dos criadores de arte em geral.

Desde Aristóteles à Berthold Brecht, muitos já postularam sobre o exercício dilacerante da criação e de como minimizar a dor, mas não o trabalho, apontando métodos e dicas para os aspirantes a grandes mentes criativas. Sei que já falei sobre isso há algumas semanas atrás, ao citar a "Arte de Escrever" de Schoppenhauer, uma traumática coletânea de "dicas para escritores", mas que vale uma leitura cuidadosa. E, caso se interesse em melhorar seu estilo de escrever, experiência menos traumática é a leitura do "Decálogo do Perfeito Contista", escrita pelo argentino Horácio Quiroga.

É claro e evidente, feito o sol, que não tenho sequer a altura de uma molécula perto destes gigantes do pensamento e da literatura, inclusive, me imagino agora, feito um mini Plankton do Bob Esponja (vide foto abaixo), ao lado da sola das sandálias do Aristóteles ou dos sapatos do Schopenhauer, gritando por atenção e implorando por qualquer fiapo daquela sabedoria toda. Longe de mim tentar esgotar o assunto ou chegar a qualquer conclusão muito profunda, mas quando me deparei com uma receita tão interessante e perturbadora como a das Empanadas Gosky, tive que compartilhar.


Diga-se a verdade: é impossível ser genial o tempo inteiro. E mesmo que nos esforcemos para tanto - ou não, como fazem muitas vezes os gênios de verdade - não é sempre que se tem sucesso. Criar um texto, e por texto leia-se: canção, poema, conto, etc., é um quebra-cabeças, onde se precisa encaixar idéias, formas, conceitos, palavras, ritmo e um monte de outras coisas para que ele funcione bem. Cortazar, no texto citado, sugere que o autor trabalhe para que o conto respire por si só e tenha vida própria; que sua estrutura funcione como um organismo coerente e se torne independente do autor; onde todos os elementos se comuniquem naturalmente e se complementem, ganhando força, de forma simples e sem rodeios - como completaria seu conterrâneo Quiroga. É criar um universo completo, mesmo que 'sem pé nem cabeça' e, se assim o for, que não haja mesmo nem pés nem cabeças dentro dele, sob pena de comprometer a magia do texto, a expectativa do leitor e a sua imersão, ou seja, o quanto ele vai confiar nesse novo mundo e se deixar mergulhar de cabeça ou só molhar a ponta dos pés.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Música Pavê : Músicos e Escritores

DICA: TRÊS LIVROS NOVOS DE MÚSICOS

Tem gente que é criativa e há também aqueles que são a própria criatividade e não se contentam em trabalhar apenas uma linguagem artística, daí termos tantos músicos que são também atores, fotógrafos, pintores, bailarinos, chefs (também é arte!) ou o que quer que seja. E muitos deles, como Vinicius e Chico, se aventuram também na escrita.
Eis aqui três exemplos, cada um de uma área da literatura, de músicos brasileiros do cenário independente que nos mostraram seus lados de escritor em 2014.

##Danislau (Porcas Borboletas) - Hotel Rodoviário
Sai em 22 de novembro o romance que o vocalista do grupo escreveu. Segundo o release, ele conta a história de Jim da Silva, um ator pornô, narrador de strip tease e padre foragido inspirado em Jim Morrison, além de também cantar em uma banda. A história viaja do interior de Minas ao México, mostrando o anti-herói em um universo que mistura o faraoeste a Bukowski. O lançamento aconceterá durante o evento Balada Literária em São Paulo.
“Pensando bem, preciso cometer a grosseria de afirmar: a stripper não é assim tão necessária. Confesso que já cheguei a narrar alguns strips na ausência da moça. Mulher, você já viu: pode cismar por um motivo besta e iniciar uma greve a qualquer momento. Já me aconteceu. Não tive problemas, narrei um strip-tease inexistente. Fui obrigado a praticar uma narração mais objetiva, o que não está muito a meu gosto, mas tudo bem. A plateia delirou. Ver e imaginar, o amigo sabe, são duas pernas de um mesmo caminhar.”

##Tiago Lobão (Nevilton) - O Pretérito Presente no Subjetivo
Esta dica já passou por aqui há algumas semanas em uma matéria mais completa, mas vale reforçar o assunto. O livro de poemas revira o passado do artista, trazendo seus fantasmas, saudades e cicatrizes à tona em versos que esbanjam ritmo e musicalidade que o fizeram conhecido no meio, além de uma sinceridade nas palavras que faz ainda mais sentido pra quem já o viu pessoalmente, em cima do palco ou em qualquer outra situação. Para saber mais, visite seu blog.
“O alívio do justo é tão fugaz,
quanto é rasteira a vida, que faz
troça da boaventurança,
e ainda vem-me roubar a rima”


##Matheus Brant - A Música e o Vazio no Trabalho
Além de músico, Brant é também advogado e esta obra surgiu durante seu mestrado em Direito do Trabalho. Trata-se de uma reflexão baseada na obra da filósofa Hannah Arendt sobre, principalmente, o papel da arte em um mundo regido pelo trabalho. Como se não bastasse, o livro vem com cinco músicas compostas para ele, expondo suas ideias de maneira poética, e cada uma delas recebeu uma ilustração da artista Deborah Paiva (tem todas neste álbum e as músicas estão na playlist abaixo). Saiba mais no site de Matheus Brant.
“Arendt situa a obra de arte e, portanto, os ‘talentos do artista’ no âmbito da atividade que denomina ‘obra’. Assim como o ‘trabalho’, a ‘obra’ possui características próprias e em tudo, senão contrária ao ‘trabalho’, ao menos completamente diferente deste, a não ser, naturalmente, pelo fato de que ambos ao lado da ação, fazem parte da vita activa e correspondem, cada um à sua maneira, à ‘condição básica sob a qual a vida foi dada ao homem na Terra’.”

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Natural, como respirar



Garimpando na minha caixa de e-mail, me deparei com uma correspondência entre mim e uma amiga que, naquela época, se sentia ansiosa com as mil coisas que já estavam planejadas e que poderiam acontecer nos próximos meses, mas não tinha muito pra fazer agora, exceto esperar. Como era uma pessoa muito ativa, resolvida e não menos ansiosa, esperar não era sua praia, se sentia perdida e meio triste, sem saber o que fazer.

Eu poderia ter feito como a maioria das pessoas faz e usar daquela solidariedade automática, também chorar minhas pitangas, dizendo que "ah, pois é, eu também tô cheio de problemas... essa vida é uma loucura mesmo! Ah, que mundo cruel!". Mas pensei: que tipo de amigo seria eu que, ao invés de confortar, elevando a outra pessoa para um nível mais alto, onde ela possa ver mais longe e se sentir melhor e mais segura com o futuro; também me jogo no buraco para chorarmos juntos e não sairmos mais dali?

Não respondi o e-mail de imediato. Fiz um chá e fiquei olhando a noite pela janela, meditando. Era madrugada, a Rua da Consolação, que outrora estava lotada de carros, agora estava vazia e assim ficaria até o amanhecer; a lua não estava mais cheia, cumpria sua sina de ir sumindo dia após dia para desaparecer completamente durante a lua nova e depois voltar a crescer até atingir a fase cheia outra vez; olhei os vultos das árvores balançando com o vento que as jogavam pra um lado e para o outro, constantemente, quase que no ritmo da minha respiração que enchia e esvaziava meus pulmões de ar, num ciclo infinito e constante, mas sempre com uma pausa entre o final do encher e o início do esvaziar. Mas, em tudo o que tinha observado havia esse momento de ausência de movimento entre as fases dos ciclos. Ora, ausência de movimento é bem o período em que minha amiga estava e, pelo que me parece - e pelo que consta nas leis da Física sobre Movimento -, é bem natural que isso aconteça.

Mesmo sendo a 3ª lei de Newton e o Movimento Pendular de Galileu Galilei belos argumentos para uma palestra motivacional, não se preocupem, venci a tentação verborrágica e apenas publicarei o que respondi depois de alguns dias de reflexão e observação:

"Nos últimos dias, pensei sobre como é naturais isso que te acontece. Fiquei olhando a natureza e, pra todo impulso, há um momento em que não se tem movimento, onde a as forças são nulas: na onda do mar, entre a onda que vai e a onda que vem; na respiração, entre o inspirar e o expirar e por aí vai. E é nesse momento que você está, entre fôlegos, entre ondas, um momento mais natural do que a gente pensa, mas que dá uma estranha e inevitável agonia. Aproveite-o! Use-o pra pensar no que você conquistou, internalize o que passou, faça planos, pense no futuro também. Pois, acho que, quando o bicho pegar e tudo engrenar, aí você não vai ter mais muito tempo pra pensar e planejar. Vai ser puro agir."

Enfim, nunca vai dar errado. Acalmar-se. Respirar. Olhar ao redor. Ficar atento. A melhor resposta vai ser a mais simples, a mais natural. Faça o teste.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Deus me lívery !



Liga na pizzaria e pede uma Margherita.

- Aqui não tem essa pizza de Margarida, não, moça.
- Não é Margarida, meu amigo, é Mar-ghe-ri-ta.
- Então, é o que eu disse, não tem Margarida aqui não.
- É margherita, meu amigo, ghe-ri-ta. É uma das pizzas mais tradicionais do mundo. Massa, muçarela, tomate e manjericão. Simples.
- Ué, mas isso aí que a senhora tá pedindo é pizza de Muçarela, então.
- Não, amigo, se tem tomate e manjericão é Margherita! Aquela história toda, das cores da bandeira da Itália, numa pizza, lá em Nápoles, em homenagem a Rainha Margherita...
- Ah, senhora, sei disso aí não. Esses negócio de gringo é tudo outra história, cheio de firula... e, também, já viu, né? Deve estar cheio de gente tentando ligar aqui e a senhora nessa coisa de pizza de Margarida!
- É Margherita, querido, Mar-ghe-ri-ta. Eme, a, érre, gê...
- Tá bom, tá bom. Vamo fazer essa aí pra senhora. Muçarela, tomate e oregano, néisso?
- Não, muçarela, tomate e manjericão. Man-je-ri-cão.
- Tá, manjericão, beleza.
- E, me diga, o manjericão é fresco?
- O Manjericão? Fresco? O mais fresco da cidade! Dá pra ver a frescura de longe, só de olhar pra ele.
- Então tá bom. Manda a pizza e traz troco pra cinqüenta.
- Tá bem então, em meia hora a pizza chega no endereço que a senhora me passou. Obrigado e boa noite.
- Obrigada, boa noite.
Nem termina de desligar o telefone e já olha pro pizzaiolo, um negão alto, um tanto acima do peso, de ombro largo e diz: 
- Aí, Manjericão, esses seus amigo tem cada uma heim!
- O que foi, Fófis? Qualé o babado?
- Ligando aí, pedindo pizza que não existe. E ainda pergunta se você é fresco! Até parece que não te conhece, pô!

Uma hora depois, chega a pizza no endereço combinado: Muçarela, tomate e orégano.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

MúsicaPavê fala sobre o PPnS


TIAGO LOBÃO: DE MÚSICO A ESCRITOR INDEPENDENTE


tiago-lobao
Talvez você conheça ele como o baixista que acompanha Nevilton, ou como o baterista no mesmo projeto. Não bastasse essa versatilidade, até como garçom o cara é conhecido. Agora, porém, Tiago Lobão acrescenta mais um ofício ao seu currículo e (por que não?) à sua identidade: Escritor.
Seu primeiro lançamento é o livro de poesia O Pretérito Presente no Subjetivo (simpático e bonito já no título), que traz 27 poeemas escritos em épocas diferentes, mas que, como ele explica, “ainda fazem parte de mim”. “E esse foi o parâmetro pra escolher os poemas”, comenta Lobão, “eles deveriam ser relevantes pra mim ainda hoje e, é claro, bonitos”. Pra esse processo de edição, ele precisou revisitar não só suas palavras, mas todas as circunstâncias que as cercaram no período de escrita – uma verdadeira viagem no tempo, como o nome sugere.
“Foi como reabrir feridas antigas pra poder redescrever a dor de uma forma mais confiável. Achei que foi um ótimo exercício artístico e psicológico pra mim”, diz o autor, que disponibilizou a obra em uma grande diversidade de formatos (Kindle, Kobo e LEV, além da versão em PDF disponível no sistema “pague o quanto quiser” e o livro impresso, vendido em shows de Nevilton). Como ele comenta, “dá pra ver que estou usando o know how de banda independente na carreira de escritor independente”.
A experiência na música, porém, vai além do formato de lançamento. “Criar tensão, desfazer a tensão, pausas, ritmo, até o som das palavras, a rima, a métrica, tudo isso foi bem mais fácil pela prática que eu adquiri fazendo música”, conta ele, afirmando que a recíproca é verdadeira e o trabalho com palavras tem uma influência inegável na hora de tocar e compor.
Algo que não conversamos, mas que imagino que ele saiba melhor do que eu, é sobre o processo de colocar uma obra no mundo, seja na linguagem artística que ela vier, sabendo que cada um se apropria dela como bem entender. As dores e a experiência que Lobão teve pra escrever um verso causarão identificações diversas nas pessoas, um processo que ele sempre observou na música e agora poderá medir ainda mais, já que assina o trabalho com seu próprio nome.
E, já que assumi o texto em primeira pessoa na conclusão, ver uma iniciativa dessas vindo de alguém já conhecido por outras funções me relembra a inquietude criativa que observo como própria da nossa geração. Mais do que produzir por um alívio da criatividade, ele usou seu tempo para repensar, revisar, reescrever e toda repetição de atividade que gere algo inédito para quem o conhece em terceira pessoa, perto ou longe, nos dando a oportunidade de enxergar não só o mundo aos seus olhos, mas ele mesmo. Haja coragem.
Pra terminar, saiba que haverá lançamento do livro em São Paulo, com direito a show, nesta quinta-feira em São Paulo. Os detalhes estão abaixo, depois da capa do livro. Acompanhe o trabalho de Tiago Lobão também em seu blog.
O-Preterito-Presente-No-Subjetivo
##Beco Antes apresenta: Nevilton + lançamento do livro do Tiago Lobão
Quinta, 9 de outubro, a partir das 20h
Beco 203: Rua Augusta, 609


fonte: http://musicapave.com/artigos/tiago-lobao-de-musico-independente-a-escritor-independente/