segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Sábado é uma ilusão.



Há alguns dias visitei a Ocupação Nelson Rodrigues, que estava rolando no Itaú Cultural, em São Paulo, aqui na Avenida Paulista. Obviamente inspiradora. Usar trechos entrevistas e textos do próprio Nelson para montar sua biografia foi uma idéia genial. Assim você conhece o autor pelas suas próprias palavras e experiências. A cenografia também era muito interessante: uma mesa de jantar, com todos da família representados ali, em meio a telas com fotos e entrevistas; Duas escrivaninhas com máquinas de escrever, lembrando a redação de um jornal... tudo isso cercado por sons, vezes de mar, vezes do datilografar de uma máquina de escrever.

Passei duas horas lá. Duas horas imerso numa das maiores mentes da história cultural do Brasil. Levei bronca e puxão de orelha do Nelsão. Aí apareceu essa história, palavras dele (não ipsis litteris, minha memória não é tão boa assim) :

"Eu era bem jovem ainda, uma criança. Minha mãe estava conversando com o jardineiro sobre os dias que ele viria cuidar das plantas. 'Você vem dia tal, dia tal... e vem também no sábado...' . Aí o jardineiro respondeu, meio pra si mesmo 'Sábado é uma ilusão'. E eu ali do lado, pequeno, ouvi e me espantei, fiquei muito intrigado sobre o por quê do sábado ser uma ilusão. Por vários dias eu especulava o jardineiro e tentava descobrir o que ele quiz dizer com aquilo. Repetia 'é... Sábado é uma ilusão..." pra ver se ele ouvia e ele nem sequer notava, ignorava ser autor de tão poderosa frase.

Eu também entendo e sinto essa frase como uma das maiores verdades da vida, incontestável. Afinal, adjetivar algo como ilusório já dá algum poder ao dito, ilusão é uma palavra poderosa, dramática. Então, vamos ver se funciona com qualquer dia: Terça-feira é uma ilusão, não convence; Domingo é uma ilusão, soa vazio; Quarta-feira é uma ilusão, sequer provoca coceira. Mas o Sábado ilusório do Jardineiro dos Rodrigues, mesmo que eu não saiba ou consiga chegar a uma explicação, é real, quase palpável. Sinto-o profundamente verdadeiro.

O sábado é uma ilusão, não sei o por quê, mas sei que é. E isso mexe com meus brios.



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