sábado, 23 de maio de 2009

Sobre a Arquitetura de Templos


O final do ano passado foi um período de avaliação da minha vida. Decisões afetivas e profissionais na balança e nada parecia fazer muito sentido, além de ser diariamente questionado e colocado em dúvida por vários sujeitos da vida.

E foi num bate papo, antes de uma palestra, que o palestrante me disse o seguinte: “Sabe Tiago, isso já aconteceu comigo também. Esse negócio de tomar decisões é um evento diário e não é fácil não. Não tem como prever o que virá. Mas à partir do dia que comecei a escolher pela minha felicidade, e não pela dos outros, eu parei de escolher errado. Nunca mais me arrependi da escolha. E tem mais, quem realmente me ama, nunca mais ficou decepcionado. Porque quem te quer bem de verdade, concordando ou não com suas escolhas, vai sempre te apoiar ao te ver feliz e vai ficar do seu lado."

O palestrante em questão era o Zé Rodrix, compositor, músico multiinstrumentista, cantor, publicitário e escritor brasileiro. Ele foi um dos criadores do estilo de música que ficou conhecido como Rock Rural, junto com dois parceiros e grandes músicos: Sá e Guarabyra. Juntos eles formavamo o trio Sá, Rodrix e Guarabyra. Após sair do trio, Zé Rodrix também tocou com a banda Joelho de Porco, precursora do Punk Rock nacional e teve sua carreira solo cheia de grandes canções, o que inclui Casa no Campo (na parceria com Tavito), que ficou muito famosa ao ser cantada por Elis Regina. Enfim, Rodrix era um artista completo e usou muito dos seus dons no ramo da publicidade durante os anos 1980 e 1990, criando jingles como o da Pepsi Cola, o da Chevrollet e diversos outros.

Além de músico ele também era escritor e estava aqui em Umuarama pra fazer uma palestra sobre uma trilogia de livros de ficção maçônica que havia escrito. A obra se chama A Trilogia do Templo e é composta dos seguintes volumes: O Diário de um Construtor do Templo; Zorobabel – Reconstruindo o Templo e Esquin de Floyrac – O Fim do Templo. Os dois primeiros livros contam a história da construção e reconstrução do Templo de Salomão, conhecido objeto de estudos da maçonaria e o terceiro fala sobre a Ordem dos Templários. Tudo com uma riqueza de pesquisas lingüísticas e simbólicas tão grande que Rodrix demorou 10 anos para escrever tal obra.

Construir-se, reconstruir-se sempre que preciso e proteger-se, como se nós fossemos (e quem disse que não somos?) um templo; ter a disciplina diária para executar bons trabalhos independente do tamanho. Um efêmero jingle publicitário ou uma trilogia de livros que duram pra sempre. Eu, como músico, fui inegavelmente influenciado pelo Rock Rural do Sá, Rodrix e Guarabyra e, naquele dia, estava sendo influenciado como escritor e como pessoa. É isso e muito mais que se pode encontrar na obra e na vida desse grande artista, o qual tive o prazer de conversar e que, num dos dias finais de 2008, me mostrou algumas verdades que eu já estava deixando de ver.

Infelizmente, nesta sexta-feira, dia 22 de maio de 2009, Zé Rodrix morreu, aos 61 anos de idade, de um mal súbito, mas cercado de sua família, em São Paulo. Disse sua esposa que ele se foi feliz como sempre viveu. Não tenho dúvidas disso. Portanto esse texto não é só uma resenha ou biografia, é uma homenagem, um obrigado além do que eu disse ao me despedir dele naquele dia. É uma chance de, quem sabe, tocar alguém que esteja precisando ouvir estas palavras, assim como eu precisei. É uma chance de despertar sorrisos como ele sempre fez.

Até um dia, vá em paz e muitíssimo obrigado, Z.


Leia o Obituário de Zé Rodrix (ótimo texto, escrito pelo próprio)


2 comentários:

Bic Muller disse...

Já li esse texto de madrugada, e já te disse que ele está bonito e simples, como tudo deveria ser.
bela homenagem.

Melz!nh@ disse...

Como eu imaginava... ficou perfeito! =]