domingo, 5 de abril de 2009

Terça-Feira, 5 de Abril de 1994.

Essa é a segunda parte dos últimos dias de Kurt Cobain, o texto é ótimo, não pela qualidade da escrita, às vezes duvidosa, mas pelo conteúdo. Ele dramatiza o que teriam sido os últimos momentos de vida de Kurt Cobain, e apesar de não saber a autoria, parabenizo o sujeito que o escreveu.

O Nirvana marcou minha vida e a de muita gente. A morte de Kurt Cobain a exatos 15 anos atrás foi um tanto chocante pra mim, um dia que não me esqueço. Recebi um telefonema da minha mãe que disse:

- Sabe aquela banda que você não para de ouvir? Então o vocalista morreu!
- O Kurt, do Nirvana?
- É, Nirvana, isso mesmo.
Se matou.


Ela me trouxe o recorte de jornal onde havia visto a notícia, que inclusive tenho até hoje. Eu tinha apenas 14 anos, algumas camisas de flanela, um violão e o desejo de ser como ele. Hoje aos quase 29, sou mais velho do que Cobain jamais será e ainda assim muito do que ele disse e fez ainda faz sentido e norteia as minhas criações.


Obrigado pelo rock, Kurt.


A Terça-Feira que ninguém viu.


Algumas horas antes da alvorada de terça-feira, 5 de Abril de 1994, Kurt Cobain havia despertado em sua cama. Os travesserios ainda tinham o cheiro do perfume de Courtney, sua esposa. No quarto, o aroma misturou-se com o cheiro ligeiramente picante da heroína cozida - este também era um cheiro que o despertava.


Kurt havia dormido com suas roupas do corpo. Vestia sua camiseta da banda Half Japanese e suas calças Levi's favoritas. Vestiu e amarrou os cadarços do par de tênis Converse que possuia, caminhou até o aparelho de som e colocou para tocar um disco do R.E.M., "Automatic for the People". Acendeu um Camel Light e caiu de costas na cama com um bloco tamanho ofício apoiado em seu peito e uma caneta vermelha de ponta fina. Ele já havia escrito uma longa carta pessoal à sua esposa e filha, rapidamente rabiscada, enquanto estava no Exodus. Ele havia trazido o papel até Seattle e havia enfiado sob um dos travesseiros impregnados de perfume. "Você sabe, eu amo você. Eu amo Frances. Eu sinto muitíssimo. Por favor, não venha atrás de mim. Eu sinto muito, muito, muito.", eram algumas das palavras que Kurt havia escrito, enchendo uma página inteira com esse pedido de perdão. "Eu estarei lá", continuou ele. "Eu protegerei você. Não sei para onde estou indo. Simplesmente não posso ficar mais aqui."


Tinha sido muito difícil escrever aquele bilhete, mas ele sabia que esta segunda carta seria igualmente importante e ele precisaria ter cuidado com as palavras. Ele endereçava "Para Boddah", o nome de seu amigo de infância imaginário. Quando soltou a caneta, havia enchido a página inteira, exceto por cinco centímetros. Ele fumara três cigarros redigindo o bilhete. As palavras não tinham saído com facilidade e havia erros de grafia e sentenças pela metade. Ele assinou dizendo "paz, amor e empatia. Kurt Cobain". Escreveu ainda mais uma linha - "Frances e Courtney, eu estarei em seu altar" - e enfiou o papel e a caneta no bolso esquerdo do casaco.

Ele se levantou da cama e entrou no closet, onde retirou uma tábua da parede. Neste cubículo secreto havia uma arma dentro de uma capa de náilon bege, uma caixa de cartuchos de espingarda e uma caixa de charutos Tom Moore. Ele repôs a tábua, enfiou os cartuchos no bolso, agarrou a caixa de charutos e aninhou a pesada espingarda sobre seu antebraço esquerdo. Em um closet do corredor, ele apanhou duas toalhas - ele não precisava delas, mas sabia que alguém precisaria. Desceu silenciosamente os dezenove degraus da larga escadaria. Estava a cerca de um metro do quarto de Cali e não queria que ninguém o visse. Ele havia refletido sobre tudo isso, traçado um mapa com a mesma premeditação que dedicava às capas de seus discos e a seus vídeos. Haveria sangue, muito sangue, e uma bagunça que ele não queria em casa. Principalmente, ele não queria assombrar aquele lar, deixar sua filha com o tipo de pesadelos com que ele havia sofrido.


Quando se dirigia para a cozinha, passou pela soleira da porta onde ele e Courtney haviam começado a acompanhar o quanto Frances havia crescido. Apenas uma linha estava ali agora, uma pequena marca de lápis com o nome dela a cerca de 79 centímetros acima do chão. Kurt nunca mais veria outra marcas mais altas naquela parede, mas estava convencido de que a vida de sua filha seria melhor sem ele.



Na cozinha, ele abriu a porta de sua geladeira Traulson de aço inox de 10 mil dólares e apanhou uma lata de cerveja de raizes da Barq, tomando cuidado para não soltar a espingarda. Levando essa carga macabra - cerveja de raízes, toalhas, uma caixa de heroína e uma espingarda, tudo o que mais tarde seria encontrando num arranjo de plantas bizarro -, ele abriu a porta para o quintal e atravessou o pequeno pátio.

A aurora estava rompendo e a neblina pairava próximo do chão. A maioria das manhãs em Aberdeen, sua cidade natal, eram exatamente assim: nevoentas, orvalhadas, úmidas. Ele jamais veria Aberdeen novamente; jamais escalaria efetivamente até o topo da caixa d'água no "Morro do Think of Me"; jamais compraria a fazenda que sonhava em Grays Harbor; jamais acordaria novamente numa sala de espera de hospital tendo fingido ser um visitante para só encontrar um lugar quente para dormir; jamais veria novamente sua mãe, irmã, pai, mulher ou filha. Ele trilhou os cerca de vinte passos até a estufa, galgou os degraus de madeira e abriu o conjunto de portas francesas dos fundos. O piso era de linóleo: seria fácil de limpar.

Ele sentou-se no chão da estrutura de cômodo único, olhando para as portas da frente. Ninguém conseguiria vê-lo ali, a menos que estivesse trepado nas árvores atrás de sua propriedade, e isto não era provável. Não queria mais ver o interior de um hospital novamente, não queria um médico de jaleco branco apalpando-o, não queria ter um endoscópio em seu estômago dolorido. Ele estava acabado para aquilo tudo, acabado para o seu estômago, ele não poderia estar mais acabado. Como um grande diretor de filmes, ele havia planejado este momento até os mínimos detalhes, ensaiando esta cena ao mesmo tempo como diretor e como ator.




No curso dos anos, tinha havido muitos ensaios finais, passagens de raspão que quase seguiam este caminho, fosse por acidente ou, às vezes, por querer, como em Roma. Talvez fora sempre isto que ele guardava vagamente em sua cabeça, como um ungüento precioso, como a única cura para uma dor que jamais passaria. Ele não se importava com a liberação do desejo, ele desejava a libertação da dor.

Ficou sentado pensando coisas que só ele sabia por vários minutos. Fumou cinco Camel Light e sorveu vários goles de sua cerveja. Tirou o bilhete do bolso, estendeu-o no chão do linóleo e tinha de escrever em letras maiores, que não saíram tão perfeitas, por causa da superfície que ele estava: "Por favor, vá em frente, Courtney, por Frances, pela vida dela que será muito mais feliz sem mim. Eu te amo. Eu te amo". Essas últimas palavras haviam completado a folha. Depositou o bilhete no alto de um monte de terra para vasos e fincou a caneta no meio, para que, como uma estaca, segurasse o papel no alto, sobre a terra.

Tirou a espingarda da capa de náilon macia. Dobrou cuidadosamente a capa, como um garotinho separando suas melhores roupas de domingo depois da missa. Tirou a jaqueta, estendeu-a sobre a capa e colocou as duas toalhas no alto desse monte. Ele foi até a pia e apanhou uma pequena quantidade de água para o seu fogareiro de droga e sentou-se novamente. Abriu a caixa com 25 cartuchos de espingarda e tirou três, enfiando-os na câmara da arma. Moveu o mecanismo da Remington para que um único cartucho estivesse na câmara. Retirou a trava de segurança da arma.

Fumou seu último Camel Light. Tomou mais um gole da Barq. Lá fora, estava começando um dia nublado - era um dia como aquele em que ele chegara a este mundo, 27 anos, um mês e dezesseis dias antes. Ele agarrou a caixa de charutos e tirou um pequeno saco plástico que continha cem dólares de heroína preta mexicana - era um bocado de heroína. Ele pegou cerca de metade, um chumaço do tamanho de uma borracha de lápis e o colocou na colher. Sistemática e habilmente, preparou a heroína e a seringa, injetando-a logo acima do cotovelo, não muito longe de seu "K" tatuado. Devolveu os instrumentos para a caixa e se sentiu uma nuvem, rapidamente flutuando para longe deste lugar. O Jainismo pregava que havia trinta céus e sete infernos, todos dispostos em camadas ao longo de nossas vidas; se ele tivesse sorte, este seria seu sétimo e último inferno. Afastou a caixa, flutuando cada vez mais rápido, sentindo sua respiração se reduzir. Ele tinha de se apressar agora: tudo estava se tornando nebuloso e um matiz verde-água enquadrava cada objeto. Agarrou a pesada espingarda, encostou o cano contra o céu de sua boca. Faria barulho; ele tinha certeza disso. Disparou.




Kurt Donald Cobain 1967 - 1994



Ps: Leia a resenha "Kurt Cobain: About a Son" no Culturanja.


7 comentários:

Bic Muller disse...

esse cara é responsável por boa parte da minha adolescencia do rock.
inevitável que ele ainda faça parte do que sou.

Anônimo disse...

o Kurt é o meu idolo , eu tenho 15 anos , so tenho pena de nao ter nascido 25 anos mais cedo para poder ter vivido na altura da melhor banda de sempre :|

Gustavo Wegner disse...

Excelente o texto. Tenho um legado de 8 anos de Nirvana e Kurt e poucos textos transparecem tanta sinceridade nos fatos.

Anônimo disse...

bom,naun sei se esse seria um comentario ou não, mas é ue eu acho estranho, pois eu nasci no mesmo dia, mês e ano que o Kurt morreu, e também era de madrugada.
meus amigos me zoam dizendo q eu "matei" o Kurt.
na verdade sou fã dele tbm.

Anônimo disse...

KURT COBAIN o melhor e maior cantor de todos os tempos. Voce pode ter morrido mas para mim ainda esta vivo. Apesar de ter 13 anos sou completamente apaixonada por voce, e tenho que tomar muito cuidado com isso. nao posso mudar o passado entao so me resta diser, te amo, meu homem. s2

Anônimo disse...

Seus burros, ele ñ se matou, a desgraçada da mulher dele pagou para matarem o Kurt........
Tem várias provas que foi ela quem mandou matar ele, ela nem tinha a guarda da filha porque ela foi acusada da morte do Kurt....
Até o pai da desgraçada disse que ela mato ele
Essa mulher é uma vadia, mandar matar o Kurt Cobain, por dinheiro, ela é uma puta.....
Mais ela vai pagar no Inferno....

Vinícius Rodrigues disse...

Para quem tá curioso sobre a fonte, esse texto foi retirado do livro (que é uma biografia sobre o kurt cobain) Mais Pesado que o Céu