terça-feira, 16 de outubro de 2007

The Greystone Park, Beverly Hills, California

Após meses de estiagem, desembestou a chover aqui nessa terra Umuaramense. E aqui no isolado Noroeste do Paraná, Brasil, o cinza celeste, que reinou pelo fim de semana inteiro, fez ressurgir lembranças de um belo lugar da ensolarada Califórnia-do-céu-sempre-azul. Com um sol de rachar coco e um vento gelado de inverno, não existe clima mais perfeito do que o a primavera californiana. E é nesse contexto que um belo dia, andando por Beverly Hills, me deparei com um portão imponente que me chamou atenção.

905 Loma Vista Dr., esquina com a Doheny Rd.

Pensei comigo: “Sorte do sujeito que mora nessa casa!”. Segundos depois descubro que aquela mansão era nada mais do que a Mansão Greystone. Cercada por lindos jardins, é hoje um parque público, onde se pode passar ótimos momentos de “relax” lendo um livro, passeando com amigos (né, Nini?) ou simplesmente sentado olhando a beleza dos jardins e pensando na vida. Fui presenteado em poder fazer isso por algumas vezes. O local também é exaustivamente usado como locação para filmes, comerciais e ensaios fotográficos, segue uma lista no final do texto.

Respeitosa entrada.

A história de Greystone tem alguns detalhes não tão belos, mas envolve um enredo digno de Hollywood, talvez essa energia que a circunda e a beleza física do lugar o façam ser o que é: inesquecível.

Tudo começou em 1926, quando o magnata do petróleo Edward Lawerence Doheny doou 12.58 acres de uma propriedade na nova cidade de Beverly Hills, Califórnia para seu único filho Edward “Ned” Lawerence Doheny Junior. A propriedade original tinha 429 acres e foi a maior propriedade familiar da história de Beverly.

Greystone assim que ficou pronta, na década de 30.

E nesses belos 12.58 acres, na encosta da montanha, com uma linda vista para a cidade, foi construída a Mansão Greystone, ao custo total de U$ 3.135.563,63 (três milhões, cento e trinta e cinco mil, quinhentos e sessenta e três dólares e sessenta e três cents), o que garantiu à casa o título de mais cara da Califórnia por algum tempo. A construção começou em 15 de fevereiro de 1926 e terminou em 24 de setembro de 1928, quanto Ned mudou-se com sua esposa Lucy Smith Doheny, quatro filhos e uma filha.

Setenta e sete anos depois, tinha eu nesse mesmo portão!

A mansão é um “revival” da arquitetura inglesa. O interior é inspirado na estética do Século XVIII. O exterior é no estilo Gótico Inglês, marcado por grandes janelas; arcos em ponta e em ogiva; além de um pé direito generoso.Toda a parte externa é revestida de pedras de Calcário Indiana (Indiana Limestone) também conhecido como Calcário Salem ou Calcário Redford, que é considerado como o melhor tipo de calcário dos Estados Unidos, formado pelos depósitos sedimentares do Rio Mississipi, é proveniente da região entre as cidades de Bloomington e Redford, cidades do estado norte-americano de Indiana. Inclusive, o David Lee Roth eterno vocalista do Van Halen é um ilustre nascido em Bloomington. Tal calcário também foi usado no exterior de edifícios famosos, como o Empire State Building, em Nova York e o Edifício do Pentágono, em Washington. O telhado e outros detalhes são de Ardósia (Welsh Slate).

Foto do luxuoso interior da mansão na época dos Doheny.

Os responsáveis por tal esplendor foram o arquiteto norte americano Gordon B. Kaufman e o paisagista alemão, residente nos Estados Unidos, Paul G. Thiene.

Dizem que o nome da propriedade foi derivado da cor das pedras de calcário que a revestiam, mas fontes oficiais registram que o nome foi inspirado no da propriedade de um amigo da família, um jurista renomado chamado Samuel Untermyer. Tal propriedade, situada no interior do estado de Nova York, que hoje se chama Untermyer Park.

Tudo estava ótimo com os Doheny, até que em 16 de fevereiro de 1929, apenas quatro meses depois de se mudarem para nova casa, Ned Doheny foi encontrado morto em seu quarto e junto com ele, também morto, seu secretário Hugh Plunkett (para os mais mórbidos, vai aqui a foto da cena do crime). Essa história de homicídio-suicídio deu pano pra manga e ainda levanta muitas suspeitas sobre motivos mais obscuros, mas a explicação oficial é que Hugh assassinou seu patrão durante uma crise nervosa ou então estava irritadíssimo por não ter recebido um aumento de salário. A arma do crime pertencia à vítima. Vai saber a verdade...

Um fato curioso é que Ned Doheny não foi enterrado em um cemitério católico junto com o resto de sua família, pois havia indicativos de que Ned poderia ter cometido suicídio após matar Hugh e a igreja católica se recusava a enterrar suicidas naquela época, pois suicídio é contra os princípios católicos. Mais curioso ainda é que Ned foi enterrado no mesmo cemitério que Hugh, seu provável assassino. Não sendo suficiente o mesmo cemitério, ambos estão bem pertinho um do outro. A foto abaixo foi tirada no Forest Lawn Memorial Park, em Glendale, onde descançam nossos personagens (uma bela cidade da região metropolitana de Los Angeles)

É só subir a ladeira...

Do contrario de que algumas fontes informam, a família de Ned permaneceu um bom tempo na mansão após sua morte. Sua esposa continuou morando na propriedade até 1955, sendo que em 1932 já havia se casado com o banqueiro Leigh M. Battson, que foi morar em Greystone. E foi em no ano de 1955 que Lucy vendeu a casa para um Industrial de Chicago chamado Henry Crown que nunca morou na propriedade, mas teve a ótima idéia de alugar a propriedade para os estúdios de cinema de Hollywood. Inclusive a família Crown vem sempre tendo ótimas idéias, hoje os herdeiros de Henry são donos de parte de times como o Chicago Bulls e o New York Yankies, de prédios como o Rockfeller Center de Nova York e de ações da Rede Hilton de hotéis.

Greystone quase foi demolida em 1963 para que Henry Crown pudesse subdividir e vender a propriedade (desta vez uma idéia não tão boa), e foi nessa hora que a Prefeitura de Beverly Hills entrou em negociações que duraram até 1965 quando, finalmente foi adquirida pelo município ao preço de U$ 1.300.000,00 (um milhão e trezentos mil dólares). Criou-se então um comitê para estudar os possíveis usos da propriedade. Esse comitê alugou a propriedade para o recém formado “American Film Institute”, por U$ 1,00 o ano (!), mas o instituto ficaria encarregado da reforma da propriedade – ora, na terra do capitalismo de verdade, tudo tem um preço que merece.

E foi assim que em 1971, a cidade de Beverly Hills finalmente dedicou Greystone como um parque municipal, que hoje é utilizado nas mais variadas atividades culturais, artísticas, cívicas e particulares. Você pode alugar um ou mais jardins para uma festa, pode alugar um ou todos os quartos para filmar cenas do seu longa ou curta-metragem, fotografar, lançar um livro, um jantar, casamentos, aniversários, enfim, Greystone é do povo de Beverly Hills e é também reconhecido oficialmente como um marco histórico norte americano pelo Departamento Nacional de Registro de Lugares Históricos. E convenhamos, é um belo dum lugar histórico, recomendo a visita.

Aqui vai a lista de alguns filmes rodados na propriedade de Greystone, tomadas internas ou externas. Muitos deles contribuíram para transformar essa mansão de Beverly Hills na mansão que ilustra o imaginário coletivo de muita gente: Jumping Jack Flash; Garfield 2; A Morte Lhe Cai Bem; Os Caça Fatasmas; Stigmata; As Bruxas de Eastwick; Homem-Aranha 1 e 3; Charlie’s Angels Potência Máxima; X-Men; A Hora do Rush; O Grande Lebowsky; Air Force One; O Guarda Costas; Do Que as Mulheres Gostam; Ricos Bonitos e Infiéis; Batman e Robin; Proposta Indecente; Linhas Cruzadas; As filhas de Marvin e milhare de outros que podem ser encontrados pela internet afora em sites especializados. Aqui tem a lista do site oficial, mas eu vi que foram muito mais.

Além dos filmes muitos ensaios fotográficos e clipes musicais foram gravados por lá, um exemplo é esse clipe lindão do Elton John, a música é uma maravila e se chama "I Want Love", está no ótimo álbum "Songs from the West Coast", de 2001. Clipe estrelado por Robert Downey Jr. A alguns anos atrás quando conheci esse vídeo, sempre quis saber onde ficava essa casa bonita. O déjà vu foi de arrepiar!

Olhem a foto que tirei do interior da casa.

Agora vejam o clipe !

Aqui vai uma foto, num outro ponto de vista, da mesma escada, também na época dos Doheny.

Incrível, não é? Como muita coisa que pode acontecer na ensolarada Califórnia. Agora deixo vocês com algumas fotos do belo lugar onde pude passar essa tarde ensolarada com minha amigona do coração e roomate Émelin. Devidamente registrada.

Um grande abraço a todos os amigos que ficaram por L.A. e os que estão pelo Brasil afora.

Visite o site oficial do parque: http://www.greystonemansion.org/

5 comentários:

Anônimo disse...

ótimo, maravilhoso Lobao! como sempre né...
Nossa, foi um presente vc ter me levado pra dar uma volta por Beverly e conhecer essa casa que me renderam uma tarde com um amigo maravilhoso numa tarde fantástica, também uma tarde super relax e um novo conceito de casa... lembra das casinha simples de Beverly Hills? Q q é aquilo!!! lindasss! Fora do normal.
Melhor ainda, foi ter o prazer de trabalhar lá na casa em uma festa de aniversário de 13 anos de uma menina judia, tal festa q custou apenas 250.000,00!!! Uh lálá!
Beijos, beijos!!!
Saudades!!! Te adoro muito amigo! Nini.

Émelin disse...

"... volto ao jardim, com a certeza que devo chorar..."

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hillyann Alves disse...

Excelente matéria, ontem estava assistido um documentário sobre está mansão e no documentário uma das historiadoras falou que o arquiteto e amigo morto junto com o dono da casa era amante dele e da esposa. Parabéns!

Tiago Knoll Inforzato disse...

Obrigado pela visita, Hylyann!
Apesar de toda a tragédia do lugar, o ambiente lá é bem pacífico. Esse é um dos lugares que eu mais gosto do de visitar. Pena que é meio longe daqui de São Paulo. Quando puder, visite.
Abraços.