terça-feira, 25 de setembro de 2007

Deixem o Gerson e os Palhaços em Paz!



O Senado é uma instituição milenar. Foi a evolução dos Conselhos de Anciãos, que já davam as caras no oriente por volta do ano 4.000 a.C. Inclusive o nome da instituição se origina daí, Senatus em latin, origina-se da palavra senex, que significa velho, idoso.

Era uma assembléia de notáveis, composta por representantes das mais altas castas romanas, pessoas bastante instruídas. Naquele tempo supunha-se que idade era indicador suficiente de maturidade e sabedoria. Quem sabe um dia foi assim mesmo.

A instituição do Senado passou por mais de um milênio de história, foi evoluindo e tomou várias formas, adotou várias posturas ideológicas e políticas diferentes, nada mais justo e corriqueiro do que a evolução de uma instituição.

O Senado Brasileiro nasceu após a Declaração da Independência, em 1822. Foi criado pela “Constituição Política do Império do Brasil”, outorgada em março de 1824 pelo Imperador D. Pedro I e definia o Brasil como monarquia centralista e hereditária. Criou-se também a Câmara dos Deputados, que juntamente com o Senado formavam a “Assembléia-Geral”, nada mais do que o ancestral do nosso “Congresso Nacional”, a famosa “Casa do Povo”.

Colocando aqui extrato fac simile da página do Senado Federal, na internet, que demonstra direitinho a beleza disso tudo: “Nasceu assim o Senado brasileiro, com raízes na tradição greco-romana, inspirado na Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha e influenciado pela doutrina francesa de divisão e harmonia dos poderes do Estado e dos direitos dos cidadãos.”. Uma beleza.

Como dito logo acima, a inspiração dos brasileiros para o Senado veio da Câmara dos Lordes (House of Lords) da Inglaterra, que também usava o sistema bicameral e tinha como contrapeso aos Lordes a Câmara dos Comuns (House of Commons), que representava o povão. Diziam que possuir o titulo de "Augusto e Digníssimo Senhor Representante da Nação", era tão importante e charmoso que o próprio Imperador Pedro II dizia que se ele não fosse o Imperador, queria ser um Senador.

O tempo passou, o Império caiu, veio a República, a Ditadura, a Republica novamente e nesse período o Senado foi fechado, reaberto, foi biônico, populista, militar. Veio o Vargas, o Juscelino, Jânio Quadros e as forças ocultas, os militares todos, até o Lula conseguiu. Enfim, nada mais justo e corriqueiro do que a evolução de uma instituição, não é?

No caso do Brasil não. Infelizmente evoluir por aqui dá errado. Sabendo “porcimamente” do que é a instituição Senado e o que ela deveria representar para a Nação, vejamos a última dos nossos "Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação”:

O chefe da casa, o Excelentíssimo Senhor Presidente do Senado foi pego fazendo suas falcatruas utilizando-se da posição de chefe dos "Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação”. Ganhou muito presente, muita grana e tudo de bom e de errado que poderia conseguir em virtude do poder que possui.

Inquirido pelos retilíneos outros Senadores "Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação” sobre de onde havia saído tanto dinheiro, tanto boi, tanta mordomia, o Presidente do Senado justificou tudo com um bando de mentiras, só faltou dizer que “um dia acordei e estava tudo lá”. Então pediram pra ele provar o que havia dito.

Ora, provar uma mentira é infinitamente mais fácil do que comprovar a verdade. E foi simples assim. O Presidente do Senado, o chefe da casa, o exemplar máximo daquela espécie, apresentou documentos falsos, inventou mais lorotas e não arredou o pé da idéia do “sou inucente” (como ele mesmo diz). Quem já mentiu, nem que seja um pouquinho, sabe que o primeiro passo para que a mentira funcione é que o mentiroso acredite no que está falando. Parabéns para o grande ator.

Instaurou-se o caos, o escândalo estava em rede nacional. Sobrou pros nossos Digníssimos Senadores apurar se - dentre outras cositas - receber propina, ser favorecido em virtude do cargo público que ocupa, falsificar documentos, chantagear e ameaçar Senadores, mentir descaradamente ao Senado e ao povo Brasileiro é quebra de decoro parlamentar. Ninguém falou em julgar o Magnânimo Presidente do Senado pelos crimes, só estávamos apurando se o que ele fez era ético ou não.

Incrivelmente os sábios, esclarecidos e altamente éticos "Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação” concluíram que estava tudo bem. O que o chefe havia feito estava dentro dos parâmetros éticos do Senado, que não houve a quebra do decoro parlamentar. Mas é claro, vivemos num período de inversão dos valores, roubar, matar, acochar a vó no tanque e atear fogo na barraquinha de cachorro quente da esquina é perfeitamente aceitável. Os valores morais estão invertidos mesmo. Cuidar da infra-estrutura? Educação? Exemplo de honestidade? Pra que? Talvez isso sim seja anti-ético.

Um bando de covardes, isso sim. Com uma ficha criminal de alguns metros, indo de homicídio a multas de trânsito, ficaram presos aos próprios pecados, todos temendo serem puxados para o buraco junto com aquele que eles mesmos empurrariam. Pois é, não empurraram.

Bom para o Senado é bom para o povo. Agora sabemos que “tá tudo liberado”. Temos uma infinidade de crimes e contravenções penais para nos divertirmos, dá pra fazer algo diferente a cada dia sem se repetir por alguns meses. Se no Senado, lugar dos sábios exemplares pode, quem dirá aqui no mundo do Zé Povão. Isso me lembra o novamente ressuscitado Gerson, símbolo equivocado da malandragem nacional.

“Então você também gosta de levar vantagem em tudo, certo?” Diria Gerson de Oliveira Nunes, o Canhotinha de Ouro, campeão mundial de futebol pela Seleção Brasileira em 1970. A fatídica frase foi dita por ele num comercial para os Cigarros Vila Rica, melhores e mais baratos que os outros. Pois é, os cigarros não existem mais, mas a “Lei de Gerson” imortalizou-se. Coitado do Gerson, teve seu nome vinculado diretamente ao “jeitinho brasileiro”, à malandragem e à corrupção, e nem foi ele que inventou a bendita frase. Será que ela veio da “cachola dois” do Duda Mendonça, publicitário e canastrão de plantão? Não, não existem tantas coincidências felizes assim. O inventor do slogan foi um tal de Jacques Lewkowicz, hoje sócio da agência de publicidade LewLara.

No fim das contas sempre coroamos a malandragem. Dia-a-dia somos nós do povo que enterramos a ética e malandramente passamos os mais desavisados pra trás, mas desta fez as instituições políticas nos superaram. Percebeu que a culpa por isso tudo bate marota em nossas portas? O que nos resta então? Diria o coletivo: “Vamos nos vestir de palhaços e sair nas ruas”, como muitos já fizeram por essas semanas. Não entendo o que o palhaço tem a ver com a história. Eles são profissionais do riso, nos divertem nesse mundo amargo, nos fazem sorrir e gargalhar. São seres tão respeitáveis quanto o respeitável público.

Definitivamente não devemos, e muito menos precisamos nos vestir de palhaços, eles são baluartes da felicidade e já são tão injustiçados pela vida de arte que levam. Enfim, se você ainda não percebeu, o Senado acabou de incluir mais um sinônimo no verbete "idiota" dos dicionários: a palavra “brasileiro”.

Agora, voltando à questão filosófico-existencial que nos abala o espírito: O que nos resta? Ora, nos resta nos vestirmos de brasileiros. Isso sim dá uma vergonha danada.

Um comentário:

Leleca disse...

Eita inspiração!

Sobre essa história toda, é fácil botar a culpa toda no Senado. Não que eles sejam um bando de santos, cruz credo. Mas é fato: alguém votou pra que eles estivessem lá. E, é triste, mas foi o brasileiro que pensou que podia levar alguma vantagem com isso, seja uma dentadura ou uma bela duma vantagem.

O brasileiro não é idiota por aceitar as lorotas todas. É idiota por votar em gente assim. E a gente, que sabe disso, é idiota de só sentar e reclamar.

É, chuchu, vai ver a tal de idiotice é inerente ao ser brasileiro...