sábado, 16 de setembro de 2017

O problema e a solução

Milênios de história e os que nos governam vem tomando as mesmas péssimas atitudes de sempre. O descaso com o Povo e a despreocupação em criar mecanismos para que todos ou, pelo menos, a maioria consiga desenvolver uma vida digna, atingindo objetivos e realizando sonhos não é de hoje. E mesmo assim, nós também temos tomado a mesma péssima atitude de mantê-los ali, no comando e na folia, mesmo cansados de saber que as soluções nunca vieram "lá de cima", pelo contrário, de lá só vieram os problemas. É evidente, e sempre foi, que a mudança é um trabalho nosso, do Povo, por isso deveríamos estar todos unidos a nosso favor, pelo bem comum, e não nos digladiando por ideologias, ou por quem jamais nos defendeu ou ajudou sem sequer demonstrar qualquer sinal de remorso.

Junto com as notícias mais recentes, o texto abaixo me inspirou o poema "Excelência,". Ele é trecho da biografia de Anália Franco e descreve fatos de 100 anos atrás, mas que poderiam ser atuais, em qualquer esfera do poder público.

"(...) O ano de 1918 não pareceu diminuir as dificuldades do povo paulista, castigado por um inverno excepcionalmente frio, com grandes prejuízos para a lavoura e a temperatura chegando a marcar mais de 3.C negativos. Devastadoras ondas de pragas invadiram seus campos diminuindo a oferta de alimentos e, particularmente na capital, as chuvas elevaram o nível dos rios Tietês, Tamanduateí e Pinheiros, causando inundações e paralisação quase total dos trens. Enquanto isso, o prosseguimento da guerra na Europa mobilizava a grande e apreensiva massa de imigrantes fazendo crescer a tensão social.

E seria com esse cenário que a progressiva são Paulo veria chegar o auge de suas agruras com a pandemia da gripe espanhola que revelou uma Saúde Pública totalmente impotente e um desencontro total entre autoridades e médicos. Enquanto durou a epidemia, a Câmara Municipal não funcionou porque os representantes do povo acharam ser sua integridade mais importante que a do povo que os elegeu e trataram de deixar a cidade. Ante o desmazelo e o despreparo do poder público, a sociedade civil teve de organizar-se para evitar o aumento da catástrofe, enterrando os mortos em valas comuns, tentando tratamentos alternativos para os doentes, improvisando hospitais e dividindo os escassos alimentos.

A vida, naquele fim de 1918, não valia nada. O medo pairava no ar. Ninguém poderia julgar-se imune ou protegido e, ao menor sintoma, o desespero tomava conta de muitos, verificando-se, então, uma onda de suicídios, de homicídios e de tragédias. A falta de recursos médicos, a desinformação, a irresponsabilidade de políticos e médicos só foi compensada pela capacidade com que a população soube se mobilizar."


in MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Anália Franco - A grande dama da educação brasileira. 1a. Edição: São Paulo, Madras, 2004. p. 220

Excelência,


Mãos ao queixo, olha a face refletida
Na janela do automóvel luxuoso
Será sua aquela face estarrecida?!
Fora, outrora, um semblante jubiloso...
Mas, agora, se assemelha a um homem morto

Perderá o seu império, o seu conforto?
Reino erguido da galhofa com o povo
Decorado pelas mãos da inconsequência
Contanto, para si, não houvesse estorvo
Bem dormia sobre as plumas da indolência

Esquivando-se da indecência que criara
Fecha os olhos, mas não escapa à consciência
Vê, agora, um povo enfrene a insurgir-se
Vê, lá fora, um pesadelo a realizar-se
Vê, nos olhos do mendigo que te encara, a sua culpa
Vê, na cara do indigente que te olha, a sua cara

sábado, 9 de setembro de 2017

Reflexões às margens do Ipiranga

Neste 7 de setembro, estive no Parque do Ipiranga, aqui em São Paulo, para as comemorações da Independência do Brasil. A imaginação excitadíssima por estar no mesmo lugar onde, há 195 anos atrás o Imperador Pedro I recebeu um comunicado de Portugal, com novas diretrizes da coroa e, não contente com o que leu, resolveu que era hora do Brasil ser um país independente. Os detalhes da operação, se houve grito, cavalo branco, mula ou diarréia, pouco me importa, é apenas detalhe tão útil quanto a cor das ceroulas do imperador naquele dia ou das minhas nesta tarde.

De qualquer forma, foi muito emocionante cantar o Hino à Independência e o Hino Nacional, executado pela orquestra da USP, ao por do sol; olhando o Monumento à Independência, onde estão os restos mortais de Dom Pedro I, bem ao lado do Riacho do Ipiranga.

Mas, mesmo envolvido entre tantos símbolos nacionais, toda a pompa e circunstância e o respeito que o evento demandava, não pude evitar pensar : "Independência do que? De quem?". Realmente, apesar do evento histórico, apesar de termos nosso próprio governo, de fato, de verdade mesmo, nunca fomos um país independente. Talvez nenhum país o seja realmente, talvez não haja independência de verdade em lugar nenhum.

O fato é que sempre dependeremos de alguém. De alguém que nos pague um salário, de alguém que compre do que produzimos, do agricultor que planta nosso alimento, da planta e dos animais que o fabricam, das moléculas vitais que estão no ar que respiramos, de cada órgão e célula de nosso corpo que nos forma e permite a vida, da luz do sol que permite as condições energéticas e climáticas para a vida... enfim, é um ciclo infinito de interdependência em muitos níveis.

Da mesma forma funciona entre as nações do mundo. Há os que compram, os que vendem, os que produzem e essa relação se desdobra em quem manda mais ou menos, quem pode mais ou menos. A dinâmica das relações é sempre a mesma, e não é estática, pode ser alterada no desenvolver do tempo, por inúmeros fatores.

E, de repente, percebi que esse raciocínio derrubou a própria questão que o criou. É muito primário, quase infantil, ficar questionando "independência por que? de quem? de que?", pois, de fato, isso não existe. A independência, que só existe se for completa, pois, se incompleta, ainda é dependência, é uma ilusão. Somos dependentes de tanta coisa que é melhor reconhecer que não existe, verdadeiramente, a independência. E qualquer luta para conquistá-la é vã, é quixotesca, para deixar mais poético.

Portanto, é melhor reconhecer que, para nos mantermos vivos e bem, precisamos de todas as coisas que existem, até mesmo de coisas que ainda nem sabemos. Trabalhando, assim, uma vida realmente melhor e mais leve, que não se desgasta na busca de uma superioridade impossível, mas que, através desse paradigma mais respeitoso e grato com tudo que nos cerca, nos coloca novamente no nosso lugar como intermediários, e não como finalidade do universo, que faz a vida chegar até nós para que a passemos adiante grata e caridosamente.

sábado, 26 de agosto de 2017

A beleza das saudades

Há dias em que memórias se revolvem e voltam à superfície, e trazem consigo todas as sensações tão vivas que parecem lembranças da véspera ou de poucos meses trás, no máximo. Nos últimos dias, trabalhei estes versos e as saudades da minha saudosa avó, Luzia que, há quase 7 anos, partiu para cumprir seu papel em outras dimensões.

Acredito na ausência total de qualquer separação entre todas as coisas, não há espaços vazios entre tudo o que nos cerca, seja no universo tangível ou não. Estou certo da interação constante entre tudo, inclusive entre os diferentes planos da existência. É por isso que, agora, qualquer saudade está longe de ser ruim. Agora, toda saudade, toda memória que ressurge sabe-se lá de onde em mim, é sinal de que a outra testemunha, que compartilha destas memórias, está ou esteve por perto, passando pra dar um oi, pra conferir se tudo vai bem, e cochicha nos meus ouvido as tantas coisas boas que vivemos juntos.

Me agrada saber que, de alguma forma, estive novamente envolvido carinhosamente pela minha avó. Pude até sentir o cheiro de Creme Nívea que habitava seus abraços e ouvir o estalar dos chinelos pelo chão da casa, enquanto vasculhava o coração atrás das palavras certas pra estes versos. Obrigado pela visita, querida avó. Volte sempre. Foi, e será sempre, uma alegria imensa compartilhar mais alguns momentos com você.

Os olhos de Luzia

Em memória de Luzia Bertoleti Inforzato, minha avó.


Luziam azuis os olhos de Luzia
Acompanhavam um riso franco, de não se esquecer jamais
Enchiam a casa de luz e de alegria
E a vida. Colorindo o mundo dos meus ancestrais

Doces memórias que embrulho em nostalgia
Pra evitar que o tempo lhes roube o bom sabor
O girassol do campo da canção antiga
O colo e o aconhego, o perfume e o mar de amor
E não só isso. Muito mais dela levo comigo
Nessa vida que sonhava que eu vivesse, e vivo

Luziam azuis os olhos de Luzia
E me escapam lágrimas ao pisar nestes quintais
A saudade dói, ainda, dia a dia,
Onde os olhos de Luzia já não luzem mais

sábado, 5 de agosto de 2017

Reconhece a queda e não desanima...


"Rico, de nada há servido as suas riquezas. Novo Plutus, como bem diz um escritor, vive no meio delas sem poder utilizá-las. Não há país onde se fale tanto em riquezas como no Brasil. Entretanto, em nenhum outro é tão difícil a vida, e tão incerto o futuro dos cidadãos. É que nossa sociedade infelizmente ainda não se compenetrou da necessidade da instrução e da ideia do trabalho livremente exercido e compensado sem distinção de sexos nem de posição. Se é como se diz, lei invencível das coisas humanas, que cada nova liberdade peça em contrapeso uma nova virtude, cada novo direito imponha um novo dever, cumpre aos que dirigem os nossos destinos traçarem com a segurança da experiência e da observação o caminho que devemos seguir para a paz e o engrandecimento da nação.

(...)

Os mil espinhos e dificuldades que são outros tantos embaraços para a realização de tão nobre intento não devem ser motivos de desalento, porque as transformações sucessivas do mundo material e moral nos estão apontando aos brios da dignidade e às palmas do triunfo que só se alcançam com a perseverança.

Nesta época de corrupção e de falsos prestígios que quase tem sido só um triunfo da mediocridade, e cujas más influências parecem tender em toda a parte a paralisar o caráter e o talento, no meio dos males que nos oprimem, volvemos os olhos cheios de fé para os horizontes do porvir. Animando-nos a esperança de que aqueles que a dirigem amarem verdadeiramente a pátria e compreenderem suas necessidades, hão de formar do Brasil um corpo social mais em harmonia com as ideias do século, elevando-o assim a ocupar o lugar que lhe compete entre as nações do mundo.

Na aurora de 1889, nasceu em França uma ciência nova, tendo por fim estudar os fenômenos sociais, principalmente na produção, na distribuição e no consumo das riquezas. É preciso que ela também apareça entre nós e que sua luz penetre em toda parte a esclarecer as classes oprimidas, manifestando-lhes os esplêndidos triunfos da ciência hodierna.

A verdadeira grandeza de um Estado, diz Worlz, "depende dos cidadãos que o governam e se empregam em elevar as almas e inspirar ideias generosas em vez de vil escravidão". República e ignorância são duas palavras que se contradizem e que se repelem; assim, a única garantia de sua consolidação está na instrução do povo e numa legislação que possa consolidar, tanto quanto o nosso século permite, os interesses de segurança com o voto da humanidade.

E como diz Barros, "quando a civilização tiver conseguido alcançar em toda a parte o abandono dos velhos usos da barbárie, a gerra deixará de ser possível, porque não haverá forças materiais que possam lutar contra as forças morais".

Não é, pois, a força bruta que constitui o elemento triunfal da Democracia, mas sim a força do espírito, que tem por si o suficiente influxo para resolver os mais elevados problemas sociais, econômicos e financeiros, para realizar os mais transcendentes prodígios.

Erguendo a minha voz humilde para saudar o IX aniversário da República, em conclusão direi como Berryer: "Não temais cidadãos em seguir o verdadeiro progresso do espírito humano que há de confiar, não em exércitos comandados por capitães mais ou menos hábeis, pois não é a força brutal, mas aos nobres combates de espírito, as lutas da inteligência o destino e a direção das sociedades."

Este texto não é meu e, apesar de pertinente, infelizmente não é atual. Foi publicado na revista Álbum das Meninas, n. 8, de 30 de Novembro de 1898, escrito por Anália Franco uma das grandes mulheres brasileiras, precursora do feminismo no mundo e merecedora de reverência e estudos nossos. Hoje, a palavra foi dela dada a sabedoria à qual me curvo tenho o dever de compartilhar.


in MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Anália Franco - A grande dama da educação brasileira. 1a. Edição: São Paulo, Madras, 2004. p. 196-197.

sábado, 29 de julho de 2017

Mude!

Chega uma hora na vida de todos nós, quando o sofrimento é imenso; quando tudo parece não fazer mais sentido; quando reina na alma o sentimento de se estar perdido; quando o desconforto beira, ou até mesmo extrapola, o insuportável. Nessa hora é muito comum dizer que "a vida nos dá golpes fortes", como se ela fosse um tipo de entidade com vontade própria. Assim, usamos mais uma vez a nossa tradicional transferência de responsabilidades que deveriam ser nossas, mas legamos para a vida, para as pessoas, para as leis e, até mesmo para o clima.

Assim, nos enganando e falsamente isentos de responsabilidade, nos sentimos mais leves para continuar vivendo as mesmas ilusões, mantendo os mesmos comportamentos e nutrindo, inevitavelmente, os mesmos vícios até que se torne insuportável.

E é no insuportável que estamos chegando, mais uma vez, na história humana. O materialismo, relação primitiva que temos com as coisas já não é o suficiente para nos completar os anseios e nos dar o bem estar que procuramos, pelo contrário, atualmente só nos tem provocado o oposto: tristeza, dores, ansiedade, doenças psíquicas e físicas.

Tragédia atrás de tragédia. Mas todo sofrimento é um convite à mudança, insistir nos mesmos erros só perpetuará as dores. A ressaca vem para avisar que é pra beber menos da próxima vez; a gastrite vem pra avisar que é melhor comer menos e ficar menos nervoso. É nesta hora escura e difícil da existência, pela qual estamos passamos, que é preciso mudar a forma de agir e de pensar.

Enquanto for "a sociedade" que precisar mudar para o mundo melhorar, nada mudará. A sociedade não é ninguém, não é um ente que faz algo, ela não vai me ouvir, refletir e decidir se acata ou não o meu pedido. Quem muda e deve mudar sou eu. Sou eu que, mudando a mim mesmo, influencio os meus arredores e, após algum tempo, arrisco a perceber alguma mudança em maior escala.

Enquanto a mudança que desejo não acontecer, é sinal de que não mudei o suficiente ou não influenciei suficientemente os meus arredores. Então é preciso continuar o esforço, persistir infinitamente, até que o mundo se torne o bem que desejo, refletindo a mim o bem que eu faço a ele, conforme a Lei Universal que, invariavelmente e infelizmente, também vale para o mal. Portanto, vale sempre lembrar que o gatilho de qualquer mudança sou eu. E o mesmo se aplica a você. Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, já davam a dica: primeiro é "um por todos" para que, depois, possa haver o "todos por um".

E continuando entre as boas influências de grandes humanos que, no trabalho de evolução individual, mesmo em meio a tropeços e inúmeras dificuldades, o que certamente acontecerá com todos os que se dispuserem a viver melhor, tentaram sugerir caminhos e influenciar os seus arredores para o bem, lembrei da sugestão do Michael Jackson, na belíssima "Man in the Mirror" que, apesar de estar num disco de nome "BAD", tem uma mensagem muito bonita. Aqui vai um trecho:

Estou começando pelo cara do espelho
Estou pedindo para ele mudar suas maneiras
E nenhuma mensagem poderia ser mais clara:
Se você quer fazer do mundo um lugar melhor
Olhe-se a si mesmo e mude!
Mude!





sexta-feira, 28 de julho de 2017

Natureza Morta


Não suporto as questões do mundo!
E não me satisfazem todas as respostas
O peso que carrego são velharias rotas
Grilhões que me aprisionam rente ao fundo

Meus pés, tão podres, já não andam
E o corpo, apático, definha
O Espírito, triste, já não sonha
Satisfaz-se com o raso da rotina

Oh, imensa plantação de dores!
Inevitável que ceifemos dissabores...
E o que mais lançar à terra, então?
Se não há semente de mais nada em meu coração